sábado, 12 de dezembro de 2009

Padre João Bosco Burnier. Estado reconhece que sua morte foi um crime político




Com 33 anos de atraso, o Governo federal admitiu, no início deste mês, através do trabalho da Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos, que o assassinato do padre jesuíta João Bosco Burnier (foto), ocorrido em 1976, foi provocado pelo regime militar. O reconhecimento oficial da culpa do Estado na morte do homem considerado um mártir pela Igreja Católica, repara um erro histórico e abre caminho para a indenização dos familiares de Burnier.
A reportagem é de Daniela Arbex e publicada pelo jornal Tribuna de Minas, 10-12-2009.
Nascido em Juiz de Fora, em 1917, o filho do engenheiro Henrique Burnier e de Maria Cândida Penido dedicou os últimos anos de sua vida à missão em Diamantino, no Mato Grosso, onde trabalhava junto aos índios Bakairi e Xavante, com quem aprendeu a língua. Aos 59 anos, porém, foi morto com um tiro na nuca, disparado pelo soldado Ezy Ramalho Feitosa, dentro da delegacia de Ribeirão Bonito (MT), quando ele tentava interceder por duas mulheres que estavam sendo torturadas por um grupo de policiais. A morte de uma das lideranças da Companhia de Jesus, que fundou o Colégio Jesuítas em Juiz de Fora, foi testemunhada pelo bispo de São Félix do Araguaia, Dom Pedro Casaldáglia, e chocou o país.
Em tese apresentada em 2007 ao programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal da Bahia, Iraneidson Santos Costa destaca a tentativa do ministro da Justiça, à época, Armando Falcão, de despolitizar o homicídio, tratando a morte de Burnier como “episódica”. No entanto, em recente parecer, a procuradora federal dos Direitos do Cidadão, Maria Eliane Menezes de Faria, reconhece que o padre foi vítima do Estado brasileiro. Para o vice-presidente da Fundação Perseu Abramo, Nilmário Miranda, autor do livro Dos filhos deste solo, que trata dos mortos e desaparecidos políticos no Brasil, a decisão da procuradora tem importância histórica. “É a reconstrução do direito à verdade e à memória. É importante recuperar essa história e fazer justiça. Apesar de vir com certo atraso, é o reconhecimento de que ele foi vítima da ditadura”, comentou Miranda.
A notícia comoveu parentes de Burnier. Apesar de seus oito irmãos já terem falecido, - um dos mais conhecidos, o monsenhor Vicente Burnier, da Pastoral dos Surdos, morreu em julho -, o jornal localizou, no Rio de Janeiro, três sobrinhas do religioso. Uma delas é a tradutora Maria Candida Burnier da Silveira, filha do engenheiro paulista Miguel Noël Nascentes Burnier. Em 1976, quando o tio foi assassinado, residia na França.
Ela relembra a dor causada pelo homicídio. “Ele sempre foi visto pela família como alguém muito especial, de temperamento manso e conciliador. Daí ter sido um choque muito grande, principalmente para os irmãos, a notícia do seu brutal assassinato. Para a família, foi um acontecimento indescritível e de difícil superação, já que os irmãos foram sempre muito unidos. Desde que voltei para o Brasil, em 1977, e apesar de ter residência no Rio de Janeiro, ia frequentemente a Juiz de Fora e me lembro muito bem de nossa tia Maria empenhada em preservar a memória do irmão. Para nós, ele foi um mártir e um santo”.
Sobre possível indenização, Maria Cândida é enfática: “é o mínimo que se pode fazer pois esta indenização é devida por justiça à família. Mas, infelizmente, não o trará de volta. Esse triste e trágico acontecimento só fez ceifar uma vida no auge de sua realização, já que o padre João Bosco estava com apenas 59 anos e tinha acabado de realizar o sonho de sua existência: trabalhar como missionário.”
Após morte, pedido de santificação
Dois meses após a morte do padre João Bosco Burnier, a Cúria Diocesana pediu a santificação do padre, o que nunca aconteceu. Quinto filho numa família de nove irmãos, ele estudou em Roma, na Pontifícia Universidade Gregoriana, onde concluiu a graduação em teologia. Lá , ordenou-se sacerdote, em 1946, complementando a formação na Espanha. Nomeado assistente para a América Latina da Companhia de Jesus, retornou ao Brasil em 1954, designado vice-provincial da região de Minas, Goiás e Espírito Santo.
Foi nesta época que atuou no Colégio dos Jesuítas, em Juiz de Fora, no qual ocupou o cargo de vice-provincial. Dois de seus oito irmãos também dedicaram-se à vida religiosa: frei Martinho, dominicano, e monsenhor Vicente Burnier, o primeiro sacerdote surdo do Brasil. Vicente morreu em julho de 2009, aos 88 anos, ficando conhecido como um dos padres mais atuantes da Pastoral dos Surdos. João Bosco teve quatro irmãs, todas residentes na cidade, mas nenhuma se casou. Doze anos após seu retorno ao país, ele partiu, em 1966, para missão da Companhia de Jesus na Prelazia de Diamantino, Mato Grosso, onde dedicou-se ao trabalho com os índios. Segundo a sobrinha Maria Candida Burnier, seu pai, Miguel Burnier, dizia que o irmão João Bosco mudou após tornar-se missionário: “O Bosco foi civilizar os índios, mas quem voltou civilizado foi ele”, revela a tradutora, ao reproduzir a frase de Miguel.
Reconhecimento tardio, segundo reitor
Em outubro de 1976, João Bosco Burnier fez sua última viagem: para São Felix do Araguaia, no Mato Grosso, onde foi acompanhar um encontro indigenista, realizando o sonho de infância de ver o Rio Araguaia. Após o encontro, visitou a aldeia Tapirapé, seguindo para Ribeirão Bonito, um lugarejo com pouco mais de mil habitantes. “Quando chegamos ao Ribeirão Bonito, logo nos sentimos envolvidos por certo clima de terror que pairava sobre o lugar. A morte do cabo Félix, da Polícia Militar, conhecido pelas arbitrariedades e crimes, trouxe ao lugar grande contingente de policiais e, com eles, a repressão arbitrária e até a tortura”, disse, à época, Dom Pedro Casaldáglia.
Na delegacia local, duas mulheres eram torturadas para confessar algo sobre os suspeitos da morte do cabo. Ouvindo os gritos, Casaldáglia e Burnier foram até lá. Após se apresentarem aos policiais, ouviram insultos. “Quando o padre João Bosco disse aos policiais que denunciaria aos superiores as arbitrariedades que vinham praticando, o soldado Ezy pulou até ele, dando-lhe uma bofetada no rosto. O soldado descarregou também no rosto do padre um golpe de revólver e, num segundo gesto fulminante, o tiro fatal, no crânio”, deixou registrado, à época, Dom Pedro Casaldaglia. O corpo do padre foi enterrado em Diamantino, no Cemitério dos Jesuítas.
Segundo o reitor do Colégio dos Jesuítas, padre Adroaldo Palaoro, a morte do religioso nunca foi considerada um acidente fatal para a igreja, mas consequência de sua opção pelos excluídos e marginalizados. “Seu martírio deu-se num contexto social e político marcado pela repressão e pela perseguição a muitos membros da igreja. Naquele momento, viver a ‘opção pelos pobres’ era correr risco.
E o padre João Bosco não se intimidou diante da violência praticada contra mulheres na prisão, em região marcadamente tensa e conflitiva, devido à presença do exército. Tardiamente, o Governo reconhece seu assassinato não como ato isolado de um policial, mas como violência política praticada pelo Estado contra aqueles que assumiram o compromisso de serem ‘vozes dos sem voz e vez’. Que este ‘reconhecimento’ oficial possa ser uma ocasião para despertar em todos nós, brasileiros, sensibilidade maior e atenção cuidadosa para com todos aqueles e aquelas que são sempre as maiores vítimas da violência: os pobres e excluídos.”

texto enviado por e-mail pela Paróquia São José Operário em Jacareí

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