sexta-feira, 4 de junho de 2010

Comunidade: o melhor caminho para a pessoa e a sociedade




Alguns procuraram esvaziar as CEBs para dentro dos Grupos de Reflexão, outros insistem em dizer que CEBs e Grupos de Reflexão são uma mesma coisa; há também quem entende que toda e qualquer comunidade Católica é uma CEBs, outros não conseguem ver as CEBs em nenhuma destas comunidades. Outros ainda priorizam os Grupos de Reflexão e abandonam as CEBs e há também aqueles que conseguem ver a força e a importância dos Grupos de Reflexão dentro das CEBs. O problema é saber se efetivamente participa de uma CEBs ou de um Grupo de Reflexão quem tanto discute sobre os mesmos.
Fato é que, por incrível que pareça, em torno destas questões, muitas polêmicas já surgiram e continuam a acontecer. Creio que há um lado positivo e um negativo nestas polêmicas. Positivo é o fato que ao menos o debate continua e sendo assim é possível dizer que as CEBs continuam vivas; e negativo é o fato que em certos casos o debate é apenas um debate entre surdos, o discurso é apenas discurso e, por mais belo que pareça, é vazio de sentido.
Todos sabemos que CEBs, muito mais que um tema para ser debatido, é uma experiência vivida por muitos pobres e excluídos deste mundo moderno e globalizado; vivida por pessoas que fazem a experiência cotidiana de não ter, além da comunidade, outro lugar onde possam se agarrar para encontrar um sentido de vida e poder sobreviver em meio a tanta violência e opressão. Logo, mais importante que discutir “sobre” CEBs é procurar ouvir o que um membro efetivo de uma CEBs tem a dizer sobre esta sua experiência na mesma.
Os membros das CEBs, mesmo que não sejam ouvidos e continuem excluídos da economia, da política, dos bens culturais, e mesmo das igrejas, eles não desesperam, continuam a esperar por dias melhores e a acreditar no seu pequeno grupo, seja ele de reflexão, de família, de jovens, de mulheres e tantos outros. Continuam a acreditar que estes grupos tão diversos, ao lutarem pela vida e ao se deixarem guiar pelo Espírito de Deus, vão se encontrando e formando uma rede de grupos e comunidades, de movimentos, cooperativas e de associações, capazes de manter viva a chama da mudança, o espírito de solidariedade, a busca de uma vida digna para todos. Vida esta que passa também pelo cuidado com a ecologia.
Mais do que de lideranças famosas ou de personalidades reconhecidas internacionalmente, as CEBs possuem pessoas desconhecidas e desprezadas, pessoas que insistem não em aparecer, nem em estar no centro das atenções, de pessoas que não precisam aparecer na tela da televisão ou nos lugares mais elevados dos eventos sociais, políticos e religiosos. Eles preferem continuar agindo nos “porões da vida”, em torno das coisas simples do dia-a-dia, refletindo e rezando esta sua ação, para que a mesma seja do gosto de Deus.
Mesmo que alguns não o desejassem as CEBs existem e são muitas. É verdade que entre a CEBs ideal e a real há uma distância bastante grande. É verdade também que entre a CEBs mais avançada e aquela que está iniciando há uma distância grande. Porém, não podemos esquecer que jamais haverá uma que seja perfeita. Só a CEBs da Santíssima Trindade é perfeita. Só esta serve de modelo para todas as CEBs feitas de seres humanos. Sendo assim, mais do que estabelecer conflitos e confusões entre CEBs e Grupos de Reflexão, talvez seja a hora de questionarmos até que ponto as CEBs e os Grupos de Reflexão se identificam ou não com a Trindade Santa e caminham na sua direção. Até que ponto os membros de um Grupo de Reflexão ou de uma CEBs procuram ou não viver o amor, a solidariedade, a fraternidade, a justiça, a partilha e, enfim, a comunhão, a exemplo da Trindade Santa?
O nome “CEBs” não é o problema. Se as CEBs forem forçadas a abandonar seu nome talvez elas não se incomodem com isso. O problema haverá se elas forem forçadas a mudar sua identidade, seus princípios e a abrir mão de suas convicções e de da sua esperança de dias melhores. As verdadeiras CEBs jamais renunciarão ao espírito que as move na direção do Reino de Deus, jamais cederão aos ventos contrários, os ventos do neoliberalismo, do individualismo, do prestígio, da fama, do poder, do consumir e do ter. Pois se elas permitissem isso, então sim deixariam de existir. E se elas deixarem de existir como sobreviverão os pobres? E, como sobreviverá ou onde soprará o Espírito de Deus?
Na sua simplicidade e humildade as CEBs pretendem continuar sendo uma maneira de a Igreja ser. E esta maneira não passa por grandes eventos e shows, nem passa pelo apoio da grande mídia ou dos donos do poder econômico. É uma iniciativa dos pobres de Deus, daqueles que se identificam com o Cristo sofrido e crucificado, e que não tem outra forma de sobreviver, num mundo tão adverso e violento, que não seja agarrando-se em uma CEBs ou ao menos em um Grupo de Reflexão. É aí que ele entenderá qual é sua identidade e missão na igreja e no mundo e terá um pouco de segurança, auto-estima, esperança e apoio de pessoas com as quais poderá partilhar suas dores, alegrias, esperanças, sofrimentos, alimentos, conhecimentos... e assim poderem não desesperar.
Não há um modelo de CEBs que todos devessem seguir, nem há leis e normas prontas às quais todos devem obedecer. Elas se constituem num espaço aberto, democrático e de comunhão, num espaço onde a vida é celebrada à luz da Palavra de Deus e as celebrações são presididas por lideranças, leigas, ordenadas, homens, mulheres, jovens, velhas, negras, brancas, pobres, remediadas, analfabetas, estudadas..., lideranças que não abrem mão de um processo permanente de formação.
Alguns andaram por aí afirmando que as CEBs já deram o que tinham para dar e que agora a Igreja vive em outros tempos. Falaram também do seu desejo de um retorno da Igreja para o passado, para dentro dos seus próprios muros. Porém a Igreja de Jesus muito mais do que sobre os desejos humanos ela é edificada sobre o sacrifício e a cruz. O próprio Jesus diante da cruz disse “não se faça a minha vontade ó Pai, mas a tua.” As CEBs, as pastorais sociais e os movimentos populares não fogem da cruz, por isso perturbam os desejos de alguns. Precisamos perguntar não pelos nossos próprios desejos mas pelos desejos de Deus, pela sua Palavra.
Alguns desejam afirmar que as CEBs são coisas do passado, e que a Igreja precisa de renovação. Mas o que dizer das CEBs dos primeiros cristãos que completaram dois mil anos e continuam servindo de modelo para as nossas comunidades de fé?
Há uma tendência no ser humano de deixar-se levar pelas forças do mal, pela moda, pela onda, pela mídia, pela massa. Diferente disso é o projeto de Jesus, que passa pela dor, pelo sacrifício e até mesmo pelo martírio. Foi depois de passar por tudo isso que Jesus ressuscitou. Por isso não dá para contemplar o Cristo ressuscitado e mesmo o Cristo eucarístico quando o Cristo crucificado, perseguido, torturado, explorado, maltratado... presente em cada irmão e irmã é esquecido. Mais que pedirmos a Deus que olhe por estes é Deus que pedirá contas a nós, sobre o que fizemos em prol dos pequeninos.
Observando a história das CEBs no Brasil pode-se afirmar que elas passaram e sempre irão passar por crises, porém não se pode negar que aos poucos elas foram criando e solidificando um novo espaço popular de intensa participação dos cristãos, de testemunho de fraternidade concreta, de criatividade celebrativa, de fértil leitura bíblica enraizada no cotidiano, de compromisso com a transformação da sociedade e com a renovação da própria Igreja.
Parece inegável que a Igreja latino-americana viveu, de Medellin 68 a Puebla 79, uma “década gloriosa”, aberta ao novo, à experimentação e à audácia. A partir daquelas conferências os excluídos e excluídas começaram a ser melhor contemplados na Igreja e respeitados na sociedade. E, não eram apenas os excluídos por falta de dinheiro que começaram a ter vez e voz, mas também os discriminados e desprezados por questões de gênero, de raça, de idade, por serem portadores de necessidades especiais, etc. Aos poucos aprendemos que o povo latino americano não padece apenas por falta de pão, mas também por falta de reconhecimento, de dignidade e de alegria.
É sabido que a transformação da sociedade e a renovação da própria Igreja não se faz de cima para baixo. A história da Igreja vai se processando em todo o tecido eclesial, e quantas vezes é a partir dos excluídos e excluídas que a Igreja se torna menos pecadora e mais santa. As vítimas de um sistema opressor são as primeiras a se abrirem à esperança de dias melhores e à ação transformadora do Espírito de Deus.
As CEBs possuem uma história dinâmica e criativa. Enraizadas na Palavra de Jesus e fortalecidas pelo Concílio Vaticano II, elas correspondem a um novo tipo de organização. As CEBs não tem dono, nem um jeito único de ser. Elas são sobretudo uma rede de experiências eclesiais diversificadas, diferentes entre si, não seguindo uma receita prefixada, mas respondendo aos desafios de realidades sociais e eclesiais específicas. Cada uma nasce com pessoas diferentes, com sonhos diferentes e com uma identidade e uma sabedoria próprias. Talvez seja por isso que surgem as dificuldades de defini-las e os conflitos em torno das mesmas.
Portanto, CEBs não é um único e novo jeito de a Igreja ser, mas sim novos jeitos de ser Igreja. Não há para as CEBs uma receita fixa, uma forma e limites devidamente prefixados. Há dentro delas inúmeras formas e possibilidades de experimentar Deus, de vivenciar o amor de Deus na opção pelos pobres, nos espaços de acolhimento e de alimentação permanente da fé e satisfação do corpo também. CEBs não é fogo de palha, é a Igreja de Jesus Cristo se tornando cada vez mais bonita, viçosa, florida, fecunda e ampla. 
Fonte: Diocese de Caçador

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