terça-feira, 1 de junho de 2010

Novas doenças na mira da Pastoral da Criança

Mudanças no estilo de vida da sociedade, como sedentarismo e maus hábitos alimentares, geram cada vez mais crianças e adultos obesos. A pastoral da criança está de olho no problema e delinea ações para combate-lo.
Entre as metas de trabalho: investir mais em hortas caseiras para melhorar a alimentação das famílias, capacitar novos líderes e intensificar acompanhamento das políticas e do atendimento público à saúde da população.
De acordo com Nelson Arns, coordenador internacional da PC, no Brasil houve avanços no setor com a implantação do SUS mas a parte preventiva ainda deixa a desejar. "Se você analisar quais as principais doenças que matam você vai ver que existem doenças ligadas à alimentação, hipertensão (pressão alta), a pessoa consome muito sal e faz pouco exercício, então se a pessoa fizesse uma dieta mais balanceada , comendo mais fibras das frutas, verduras, praticando pelo menos meia hora de exercício por dia, e buscasse um estilo de vida mais saudável , perdendo um pouco de peso você praticamente diminuiria em 80% problemas de pressão e diabetes", avalia.nelson_arns1
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Igor Mota.

















Nelson Arns esteve recentemente em Belém onde participou do 6º Encontro Regional da Pastoral da Criança, realizado de 17 a 22 de maio. Nelson Arns Neumann nasceu em Curitiba, possui graduação em Medicina pela Universidade Federal do Paraná (1988), mestrado em Epidemiologia pela Universidade Federal de Pelotas (1997) e doutorado em Saúde Pública pela Universidade de São Paulo (2000). Atuou como médico, missionário leigo, na Diocese de Bacabal - Maranhão, em 1988 e 1989. Desde 1990 é Coordenador Nacional Adjunto da Pastoral da Criança - Organismo de Ação Social da CNBB (Conferência Nacional de Bispos do Brasil).
Durante o encontro em Belém o coordenador falou sobre a missão da PC no Brasil e no mundo, a necessidade de novos líderes e dos desafios do trabalho:
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Igor Mota.















Como começou o seu trabalho na PC:
Eu quase posso dizer que começou dentro da barriga da minha mãe. Ela sempre teve atenção muito grande e especial com relação às crianças e no início em Curitiba quando trabalhava em hospital em postos de saúde. Mas, mais especificamente em 1984 eu já acompanhava as capacitações, me formei médico e fui trabalhar no Maranhão, em 1988, na diocese de Bacabal e depois Dom Geraldo (que na época era responsável pela PC) me pediu pra trabalhar na coordenação nacional,  então fazem 20 anos que estou na coordenação nacional como adjunto da coordenação.
Hoje qual o maior desafio da PC no mundo?
Têm situações distintas: no Brasil a Pastoral da Criança está bem consolidada em parte dos municípios e aqui nosso principal desafio são as novas doenças porque antigamente falávamos: ‘olha, o soro caseiro salvou milhares de vidas'. Mas, hoje toda mãe sabe preparar a solução, não precisa de tanto esforço da pastoral da criança. Hoje as doenças que mais matam crianças são ligadas ao nascimento, logo antes ou logo depois do parto e se tem a perspectiva de que metade das crianças que vão morrer esse ano vão morrer com menos de uma semana de vida, e para combater isso depende da líder aconselhar a mãe a fazer um pré-natal, acompanhar para que ele seja bem feito, mas depende também que o Estado faça a sua parte. Então, a PC tem um papel ainda muito grande para a sobrevivência infantil e depende cada vez mais de tecnologia que tem que ser ofertada pelo poder público. E ao mesmo tempo há as novas doenças. Hoje temos muito mais obesos, crianças com sobrepeso no Brasil do que crianças desnutridas. Isso é mudança radical e a maneira de combater também precisa ser, porque tanto o desnutrido quanto o obeso precisam de orientação alimentar. Mas, a questão da obesidade está muito ligada ao fato de as crianças não terem mais aquele espaço para brincar. Estava conversando com o pessoal de Belém e em todo o Brasil a gente lembra de como quando éramos crianças...Naquela época as crianças fechavam as ruas e jogavam futebol, se aparecia um carro o motorista reduzia, seguia devagarinho passava e as crianças voltavam a brincar. Hoje a preferência é toda para o carro. A mãe inclusive tem medo que a criança vá para a rua, que seja atropelada, que seja vítima de violência, de uma bala perdida, e acaba deixando a criança o dia inteiro na frente do televisor, às vezes  contra a vontade da criança, mas isso acaba diminuindo a oportunidade da criança brincar e conviver e também leva à obesidade porque leva a criança a ficar muito parada.
Nos outros países a questão de saúde e sobrevivência é muito mais importante o desafio é conseguir vacinas para todas as crianças, no Brasil temos a questão da saúde como um todo.nelson_arns4
Foto:
Igor Mota.















Qual o grande entrave para saúde pública no Brasil?
O Brasil avançou muito com a implantação do SUS. Em Bacabal, entre 1988 e 1989, eu atendia pessoas que em trinta e até em sessenta anos nunca tiveram oportunidade de consultar um médico porque não existia esse serviço. Então, pra essa população melhorou bastante. Por outro lado a parte preventiva ainda não está legal. Se você analisar quais as principais doenças que matam você vai ver que têm doenças muito ligadas à alimentação, hipertensão (pressão alta), a pessoa consome muito sal e faz pouco exercício. Então, se a pessoa fizesse uma dieta mais balanceada, comendo mais fibras das frutas, verduras, praticando pelo menos meia hora de exercício por dia, e buscasse um estilo de vida mais saudável , perdendo um pouco de peso você praticamente diminuiria em 80% problemas de pressão e diabetes. É claro tendo problemas de pressão, diabetes isso sobrecarrega o sistema de saúde e ele não vai dar conta se não trabalhar a prevenção. Exemplo prático seria o próprio soro caseiro. Quando me formei em medicina em 1988 a gente tinha 80% dos leitos dos hospitais ocupados por crianças com diarréia , no Hospital de Clínicas de Curitiba, o chefe da pediatria disse que das 14 vagas da UTI, 10 eram para crianças com desidratação. Hoje não tem criança internada com desidratação. Você parte de um modelo em que 80% dos gastos do hospital eram por diarréia e a mãe conhecendo como tratar e a sociedade aprendendo você não teve mais nenhum internamento. Isso tem que passar para outras doenças senão a gente vai gastar demais no tratamento quando se deveria gastar na prevenção.
Hoje estamos em mais de 20 países. Com diferentes graus de implantação. O forte é aqui na America latina, Angola e Timor leste. Estamos com três missionárias brasileiras trabalhando agora no Timor leste, semana que vem vão missionários para Guatemala e também ao Peru e assim estamos o tempo todo implantando a PC e principalmente acompanhando os trabalhos, porque não é só plantar a semente e abandonar, temos que cuidar porque senão ela se perde no meio do mato.
Qual impacto com o falecimento de Zilda Arns para a Pastoral da Criança ?
As pessoas despertaram para a necessidade de ajudar o próximo. As pessoas veem que a vida precisa de conforto material, mas precisa também ter essa doação e isso faz parte do nosso bem estar aqui na terra também, sem pensar na recompensa eterna que sempre há pra quem auxilia o próximo. A gente lembra que quando se fala em ardor missionário se remete a palavra 'arder' e 'ardor' é algo que incomoda, então o trabalho voluntário não é fácil, enfrenta dificuldades mesmo dentro da PC, que você tem apoio, material educativo, mas encontra desafio constante e justamente esse ardor que nos leva a enfrentar o trabalho com muita alegria e a gente vê cada vez mais pessoas se aproximando da PC querendo trabalhar em prol do bem comum e de uma sociedade justa e solidária. Tenho recebido inúmeras manifestações de pessoas que ate já trabalharam e haviam deixado e estão voltando e isso no mundo inteiro. Muita gente acompanhou as noticias (do falecimento de Zilda Arns)  pela internet e se engajou.
Há algum sonho não realizado de Zilda Arns que o senhor vai abraçar?
O sonho dela estava vinculado ao chamado de Jesus para que todos tenham vida e vida em abundância. Então, ela sempre lembrava que a PC deve estar a serviço de todas as crianças para que todas as crianças tenham a vida plena que merecem e que com a contribuição das pessoas, que tem um pouco mais de conhecimento e boa vontade, vai ser alcançado muito mais facilmente.
Regional Norte 2 partilha experiências com Colômbia
Este ano o 6º Encontro Regional da Pastoral da Criança realizado em Belém recebeu cinco coordenadoras da PC na Colômbia.   "Elas vieram para conhecer melhor as ações aqui no Brasil e articular alguma nova ação em Bogotá. Além disso, a presença das colombianas fortalece nossos laços com países vizinhos", explica irmã Veneranda Alencar, coordenadora da PC no Pará.  geral_encontro
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Igor Mota
















Coordenadores de cinco estados participam de 6º Encontro Regional da PC em Belém
De acordo com irmã Venerada o 6º Encontro Regional teve uma avaliação positiva. "Foi uma semana muito boa de modo geral que valeu troca de experiência e as oficinas em pequenos grupos.pc_09



















Irmã Veneranda Alencar é coordenadora estadual da PC no Pará
Cinco colombianas participaram do encontro em Belém. De acordo com irmã Cecília Rodrigues, coordenadora da PC em Bogotá, o trabalho da PC na Colômbia começou em 2001. Atualmente existem 1,8 mil líderes e a PC está presente em 45 dioceses da Colômbia.Cerca de 18.800 crianças são acompanhadas; 860 gestantes são atendidas pelas líderes e 15. 700  famílias são beneficiadas.
"Temos boas líderes, bom material para campanhas, mas nosso maior desafio é a pobreza do local. Em algumas comunidades o sistema de tranportes é precário, faltam recursos para levar nosso trabalho a todos", explica irmã Cecília. Ela lembra que há convênios com o governo local e com o Instituto Colombiano de Bem Estar das Famílias, mas não é suficiente.  dsc03312



















Irmã Cecília Rodriguez coordena os trabalhos da PC em Bogotá.
"Estimamos que existam 5 milhões de crianças menores de 6 anos na Colômbia. O Instituto atende 2 milhões e nós mais 18 mil, então ficam de fora cerca de três milhões de crianças que não são acompanhadas. Este ano houve melhora significativa com campanhas de aleitamento materno exclusivo e prevenção de casos de diarréia", explica irmã Cecília. A religiosa destaca que grande parte das famílias sobrevivem do mercado informal na Colômbia e que muitas delas estão desalojadas por conta da guerrilha que assola o país. "Isso prejudica muito nosso trabalho no acompanhamento das crianças e das famílias. Nossa ação chega também as crianças orfãs. Mas, ainda faltam recursos para capacitar mais líderes e chegar a todos os pobres", diz a coordenadora colombiana.
Alimentação - Entre os projetos da PC para 2010 está o investimento maior em hortas caseiras. No Pará a experiência já é realidade em comunidades da região Santana, no  bairro do Guamá, periferia de Belém. "Foi o primeiro grupo pastoral a ser treinado. Mas, vamos levar trabalho a outras dioceses. Antes nosso trabalho era específico com alimentação enriquecida com multimistura, agora vamos trabalhar com alimentação saudável estimulando que as famílias mantenham hortas caseiras mesmo que muitas nem tenham mais quintal, mas em qualquer cantinho é possível fazer horta, seja num pequeno espaço de um quintal, ou no vaso da sala", diz irmã Veneranda, lembrando que a PC está preocupada com a má alimentação da maioria da população.
"Sabemos que nos alimentamos mal e precisamos combater doenças. Essa ação de estimular hortas em casa existe há três anos e vamos intensificar a sensibilzação", afirma a coordenadora.
Para estimular ainda mais esse trabalho a PC precisa contar com o apoio de mais líderes voluntários. De acordo com irmã Veneranda há preocupação com a baixa de 7% no número de líderes no ano passado. "A PC tem evasão em todo o Brasil de 20% dos líderes ao ano. No Pará o número também diminui nesse esse ritmo", diz.
Fonte:CNBB 2

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