quinta-feira, 3 de junho de 2010

A origem da festa: o sonho de uma jovem menina de Liège

03/06/2010 | Fernando Altemeyer Júnior *
A Festa de Corpus Christi (nome breve latino da Festa do Santíssimo Sacramento ou Festa do Corpo e Sangue de Cristo) foi instituída pelo Papa Urbano IV com a Bula ‘Transiturus' de 11 de agosto de 1264, para ser celebrada na quinta-feira após a Festa da Santíssima Trindade o que acontece no domingo logo depois de Pentecostes (portanto 60 dias depois da Páscoa Cristã). O Papa Urbano IV foi o cônego Tiago Pantaleão de Troyes, arcediago (na Igreja medieval, dignitário das Sés que secundava o bispo nos ofícios junto com o chantre e o diácono) do Cabido Diocesano de Liège, na Bélgica, que recebeu o segredo das visões da jovem freira agostiniana, Juliana de Mont Cornillon, que exigiam uma festa da Eucaristia no Ano Litúrgico.
Juliana nasceu em Liège em 1192 e participava da paróquia Saint Martin. Com 14 anos, em 1206, entrou para o Convento das Agostinianas em Mont Cornillon, na periferia de Liège. Com 17 anos, em 1209, começou a ter ‘visões', exigindo da Igreja uma festa anual para agradecer o sacramento da Eucaristia. Com 38 anos, em 1230, confidenciou esse segredo ao arcediago de Liège, que 31 anos depois, por três anos, tornar-se-á o Papa Urbano IV (1261-1264), e proclamará como evento mundial a Festa de Corpus Christi, pouco antes de morrer.
A ‘Fête Dieu' começou na paróquia de Saint Martin em Liège, em 1230, com autorização do arcediago para procissão eucarística só dentro da igreja, a fim de proclamar a gratidão a Deus pelo benefício da Eucaristia. Em 1247, aconteceu a 1ª procissão eucarística pelas ruas de Liège, já como festa da diocese. Depois se tornou festa nacional na Bélgica.
A festa mundial de Corpus Christi foi decretada em 1264, 6 anos após a morte de irmã Juliana em 1258, com 66 anos. Santa Juliana de Mont Cornillon foi canonizada em 1599 pelo Papa Clemente VIII.
CELEBRAÇÃO OBRIGATORIA E PUBLICA PELAS RUAS DE TODO O PLANETA:
O decreto de Urbano IV teve pouca repercussão, porque o Papa morreu em seguida. Mas se propagou por algumas igrejas, como na diocese de Colônia na Alemanha, onde Corpus Christi é celebrada antes de 1270.
O ofício divino, seus hinos, a seqüência ‘Lauda Sion Salvatorem' foram elaborados segundo a tradição advinda do trabalho pessoal de Santo Tomás de Aquino (1223-1274), que estudou em Colônia com Santo Alberto Magno. Corpus Christi tomou seu caráter universal definitivo, 50 anos depois de Urbano IV, a partir do século XIV, quando o Papa Clemente V, em 1313, confirmou a Bula de Urbano IV nas Constituições Clementinas do Corpus Júris, tornando a Festa da Eucaristia um dever canônico mundial. Em 1317, o Papa João XXII publicou esse Corpus Júris com o dever de levar a Eucaristia em procissão pelas vias públicas.
O Concílio de Trento (1545-1563), por causa da Reforma de Lutero e dos que negavam a presença real de Cristo na Eucaristia, fortaleceu o decreto da instituição da Festa de Corpus Christi, obrigando o clero a realizar a Procissão Eucarística pelas ruas da cidade, como ação de graças pelo dom supremo da Eucaristia e como manifestação pública da fé na presença real de Cristo na Eucaristia.
Em 1983, o novo Código de Direito Canônico -cânon 944- mantém a obrigação de se manifestar ‘o testemunho público de veneração para com a Santíssima Eucaristia' e ‘onde for possível, haja procissão pelas vias públicas', mas os bispos escolham a melhor maneira de fazer isso, garantindo a participação do povo e a dignidade da manifestação. O Cristo Eucarístico é apresentado nesta procissão pelas ruas das cidades com a ajuda de um relicário ou ostensório (peça de metal com vidro e inúmeros raios em formato de um sol resplandescente). E muitas vezes o povo responde ao mote do bispo ou padre: "Honras e louvores se deem a todo momento". E a resposta do povo: "Ao santíssimo e digníssimo Sacramento".
SACRAMENTO E PRESENÇA REAL DO CRISTO VIVO NA HÓSTIA CONSAGRADA:
A Eucaristia é um dos sete sacramentos e foi instituído na Última Ceia, quando Jesus disse: ‘Este é o meu corpo...; isto é o meu sangue...; fazei isto em memória de mim'. Porque a Eucaristia foi celebrada pela 1ª vez na Quinta-Feira Santa, Corpus Christi se celebra sempre numa quinta-feira após o domingo depois de Pentecostes.
Na véspera da Sexta-Feira Santa, a morte na cruz impede uma festa solene e digna de gratidão e doutrinação. Porque a Última Ceia está no Novo Testamento, os evangélicos lhe têm grande consideração, mas com interpretação diferente.
Para os Luteranos e Metodistas, a Eucaristia é sacramento, mas Cristo está presente no pão e no vinho, apenas durante a celebração, como permanência e não transubstanciação. Outras igrejas cristãs celebram a Ceia como lembrança, memorial, rememoração, sinal, mas não reconhecem a presença real. Mas algo existe em comum que, através da Eucaristia, une algumas Igrejas cristãs na Eucaristia, ensina o Concílio Vaticano II, no decreto ‘Unitatis Redintegratio'.
A Eucaristia é também celebração do amor e união, da comum-união com Cristo e com os irmãos. A Eucaristia, que é a renovação do sacrifício de Cristo na cruz, significa também reunião em torno da mesa, da vida e da unidade para repartir o pão e o amor. A Eucaristia é o centro da vida dos cristãos : ‘Eu sou o Pão da Vida, que desceu do céu para a vida do mundo, através da vida de comum-união dos cristãos'. É muito comum recitar em português ou latim o hino Tantum Ergo.
A MÚSICA QUE ALEGRA O POVO CATÓLICO
Tão sublime Sacramento, adoremos neste altar,
Pois o Antigo Testamento deu ao Novo seu lugar.
Venha a Fé, por suplemento os sentidos completar.
Ao eterno Pai cantemos e a Jesus, o Salvador.
Ao Espírito exaltemos na Trindade, Eterno Amor.
Ao Deus Uno, e Trino demos a alegria do louvor.
Amém, Amém.
Tão sublime Sacramento, adoremos neste altar,
Pois o Antigo Testamento deu ao Novo seu lugar.
Venha a Fé, por suplemento os sentidos completar.
Ao eterno Pai cantemos e a Jesus, o Salvador.
Ao Espírito exaltemos na Trindade, Eterno Amor.
Ao Deus Uno, e Trino demos a alegria do louvor.
Amém, Amém.
Vejam estes belos filmetes
A versão latina
Texto: Santo Tomás de Aquino, doutor da Igreja.
Tantum ergo sacramentum
Veneremur cernui:
Et antiquum documentum
Novo cedat ritui:
Praestet fides supplementum
Sensuum defectui.
Genitori, genitoque
Laus et iubilatio,
Salus, honor virtus quoque
Sit et benedictio:
Procedenti ab utroque
Compar sit laudatio.
Amem
Tantum ergo Sacramentum Tão grande sacramento
Vê neremur cernui. humildemente adoremos.
Et antiquum documentum Da antiga Lei as figuras
Novo cedat ritui cedam ao novo rito
Præstet fides supplementum Sirva a fé de suplemento
Sensuum defectui. À fraqueza dos sentidos
Genitori, Genitoque Ao Pai e ao Filho,
Laus et jubilatio, seja dado louvor e júbilo.
Salus, honor, virtus quoque Saudação,honra,virtude
Sit et benedictio assim como a benção.
Procedenti ab utroque Ao que de ambos procede(o Esp. Santo)
Compar sit laudatio. Os mesmos louvores demos
Amen. Amém
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Pesquisa sobre texto original do Monsenhor Arnaldo Beltrami
Saudações fraternas
Prof. Dr. Fernando Altemeyer
Depto. Ciências da Religião PUC-SP
02/06/2010
Véspera do Corpus Christi
* Teólogo, doutor em ciências sociais, professor nas Faculdades Claretianas, na UNISAL, na EDT e na PUC-SP
Fonte: Fernando Altemeyer Júnior 
Fone: revista Missões

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