segunda-feira, 5 de julho de 2010

A música que liberta


Por Vânia Correia
A Teologia da Libertação animou a caminhada da Igreja Católica da América Latina a partir da década de 60. Diante do contexto de dominação social, cultural, política e econômica da América Latina por parte da Europa e dos EUA, a Igreja entendeu a necessidade de uma prática libertadora e de uma evangelização que levasse em conta a realidade do excluído, promovendo vida em plenitude. É a Teologia da Libertação que anima e ilumina, ainda hoje, a vida nas CEB’s (Comunidades Eclesiais de Base), nas pastorais da juventude e nas pastorais sociais.


Nesse contexto a música ocupa um lugar importante como manifestação de fé e clamor a Deus. Ela expressa o jeito de pensar, sentir e agir. Os cantos inspirados na Teologia da Libertação se distinguem dos que animam uma Igreja mais conservadora ou a dita “renovada”. São cantos que falam do pobre, do índio, do negro, e de todos aqueles que de algum modo estão postos à margem. Louva o Deus libertador, que toma partido do oprimido contra o opressor. Fala da fé encarnada na realidade, da luta da América Latina, ou como diz a canção “A fé do homem nordestino, que busca um destino, um pedaço de chão, a luta do povo oprimido que abre caminhos, transforma a nação”, (Ofertório do Povo /Zé Vicente).
As músicas da RCC (Renovação Carismática Católica), geralmente, conduzem a uma oração subjetiva, com forte apelo emocional, como na música do Pe. Marcelo Rossi, “Espírito, enche a minha vida, enche-me com teu poder, pois em ti eu quero ser...”. Ao contrário, as músicas mais progressistas expressam uma fé que transpõe as barreiras do individual. São orações que desafiam os fiéis para a construção de um projeto coletivo. Exaltam a união, a resistência popular e a solidariedade de Deus com os que sofrem. “No banquete da festa de uns poucos, só rico se sentou, nosso Deus fica ao lado dos pobres, colhendo o que sobrou” (Pão de Igualdade/Vaz Castilho).
Em muitos lugares as músicas que animam as celebrações nas CEBs causam estranhamento e críticas. Isso porque a Teologia da Libertação vem perdendo força e espaço para os movimentos pentecostais na Igreja Católica. As pessoas vão à Igreja para buscar alívio para as próprias angústias. E o que elas encontram é, justamente, um consolo individual, um sossego que acomoda e que não convoca para a construção de uma sociedade mais justa. No entanto, ainda existem muitos que, corajosamente, continuam a professar uma fé encarnada na realidade, que liberta e não aliena. E esses cantaram sempre ao “Pai-Nosso revolucionário, parceiro dos pobres, Deus dos oprimidos”. (Pai Nosso dos Mártires/Cirineu Kubn).
Fonte: http://www.latinoamericano.jor.br


Pai Nosso dos Mártires - Cirineu Kubn

Pai nosso, dos pobres marginalizados
Pai nosso, dos mártires, dos torturados.
Teu nome é santificado naqueles que morrem defendendo a vida,
Teu nome é glorificado, quando a justiça é nossa medida
Teu reino é de liberdade, de fraternidade, paz e comunhão
Maldita toda a violência que devora a vida pela repressão.
O, o, o, o, O, o, o, o

Queremos fazer Tua vontade, és o verdadeiro Deus libertador,
Não vamos seguir as doutrinas corrompidas pelo poder opressor.
Pedimos-Te o pão da vida, o pão da segurança, o pão das multidões.
O pão que traz humanidade, que constrói o homem em vez de canhões
O, o, o, o, O, o, o, o

Perdoa-nos quando por medo ficamos calados diante da morte,
Perdoa e destrói os reinos em que a corrupção é mais forte.
Protege-nos da crueldade, do esquadrão da morte, dos prevalecidos
Pai nosso revolucionário, parceiro dos pobres, Deus dos oprimidos
Pai nosso, revolucionário, parceiro dos pobres, Deus dos oprimidos
O, o, o, o, O, o, o, o
Pai nosso, dos pobres marginalizados
Pai nosso, dos mártires, dos torturados.                                                                                                                 






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