quinta-feira, 21 de abril de 2011

O Drama da Paixão


As primeiras comunidades cristãs, lendo esse texto à luz da Ressurreição, identificaram no Servo que sofre injustamente até a morte, o próprio Jesus de Nazaré, “que andou por toda a parte, fazendo o bem e curando a todos [...] porque Deus estava com ele” (At 10, 38). Embora inocente, foi acusado, traído e abandonado pelos seus, que “o mataram, pregando-o numa cruz” (At 10, 39).
Na Semana Santa a liturgia da Igreja revive o drama da Paixão de Jesus, o Servo Sofredor, que “esvaziou-se a si mesmo” e “apresentando-se como simples homem humilhou-se, tornando-se obediente até a morte, e morte de cruz” (Fl 2,7-8).
O caráter dramático dos relatos da Paixão se evidencia à medida em que se percebe que sua morte “resultou de um conflito bem circunscrito e definido legalmente”, num determinado contexto histórico, socioeconômico, político e religioso (L. Boff. Paixão de Cristo, paixão do mundo,1990). 
Sua morte só é compreensível a partir de sua prática, das opções e gestos libertadores que realizou em sua vida, pois ele não foi condenado “por causa de um mal-entendido, mas por sua atitude real, cotidiana, histórica” (Ibid.)
Desde 64 a.C. a Palestina estava sob domínio do Império Romano, do qual dependia sua vida política, cultural e econômica. O sistema tributário romano era perverso. “Havia impostos para quase todas as coisas: sobre cada membro da família, terra, gado, plantas frutíferas, água, carne, sal e sobre todos os caminhos” (H.Echegaray. A prática de Jesus, 1982). Nesse contexto, vários grupos se articulavam em torno da expectativa pelo advento do Reino de Deus: saduceus, fariseus, escribas, zelotas, essênios.  Todos esperavam que o Messias promovesse a libertação do povo de acordo com seus interesses.
Jesus, no entanto, rejeitou a compreensão do Reino como dominação política, poder religioso ou qualquer outra forma de poder, frustrando as expectativas presentes no imaginário coletivo da época sobre o Messias – esperado como alguém poderoso e invencível. Ao contrário, apresentou-se como servo, pobre, “filho do carpinteiro” (Mt 13,55), trabalhador não instruído na Lei.
Sua prática contrapunha à concepção de poder do Império a noção de serviço (diakonia) em favor dos pequenos, das vítimas da exploração estrangeira e da opressão religiosa. Sua ação a partir do ‘lugar social’ dos empobrecidos desagradou muita gente. Mesmo não se colocando diretamente no campo da disputa política para tomada do poder, sua prática provocou rápida reação por parte dos que detinham o controle (cf. Mc 3,6).
Aprisionado, Jesus foi julgado em dois processos: um religioso (blasfêmia por haver-se declarado Filho de Deus) e outro político (pretender ser rei dos judeus, agitador público). Julgado às pressas, foi condenado sumariamente à pena de morte por crucificação, método comumente utilizado pelos romanos, com requintes de crueldade, de maneira a impor muito sofrimento ao condenado antes de sua morte (P. Barbet. A paixão de Cristo segundo o cirurgião, 2003).
O drama da Paixão atingiu seu ápice na cruz, “escândalo para os judeus e loucura para os pagãos” (1Co 1,23), diante da qual tudo parecia perdido. “Todos fugiram e o abandonaram” (Mc 14,50). Aos pés da cruz permaneceram tão somente “a mãe de Jesus, a irmã da mãe dele, Maria de Cléofas, Maria Madalena e o discípulo que ele amava” (Jo 19,25). 
Jesus, no entanto, assumiu o absurdo da cruz em solidariedade e amor com os crucificados de todos os tempos. Sua cruz é “lugar onde se revela a forma mais sublime do amor” (L. Boff), afinal, “não existe amor maior do que dar a vida pelos seus” (Jo 15,13), gratuita e generosamente.
Contudo, o último ato do drama da Paixão não foi a morte, mas a Ressurreição, pois “Deus ressuscitou Jesus, libertando-o das cadeias da morte, porque não era possível que ela o dominasse” (At 1,24). O amor venceu e sempre vencerá!
Ora, o drama da Paixão continua na história de quantos seguem a Jesus fielmente, como Ir. Dorothy Stang, Dom Oscar Romero e tantos outros irmãos e irmãs conhecidos e anônimos, que dia a dia empenham a própria vida na causa do Reino.
Fonte: Arquidiocese de Campinas
Que as celebrações da Semana Santa, revivendo os eventos da Paixão, Morte e Ressurreição do Senhor, possibilitem a todos profunda renovação interior e revigorem a disposição para trabalharmos pela Civilização do Amor, perseguindo a utopia do ‘outro mundo possível’, com novas relações de justiça e fraternidade.
Somente assumindo a prática de Jesus como nossa, até as últimas consequências, compreendemos o sentido da cruz e celebramos dignamente a Páscoa da Ressurreição. Feliz Páscoa!


Padre João Batista Cesário é coordenador da Pastoral Universitária PUC-Campinas

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