sexta-feira, 15 de abril de 2011

CPT lança relatório conflitos no Campo no Brasil em 2010




CPTNa próxima terça-feira, 19, a sede da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) vai receber o lançamento da publicação anual “Conflitos no Campo no Brasil 2010”, da Comissão Pastoral da Terra (CPT). Esta será a 26ª edição do relatório que concentra dados sobre os conflitos, violências sofridas pelos trabalhadores e trabalhadoras rurais e suas comunidades e pelos povos tradicionais, em todo o país.
O relatório elenca também algumas ações dos homens e mulheres do campo na busca e defesa de seus direitos. Estarão presentes ao lançamento, o presidente da CPT, dom Ladislau Biernaski; o conselheiro permanente da CPT, dom Tomás Balduino; o coordenador nacional da CPT, padre Dirceu Fumagalli; o secretário da coordenação nacional da CPT, Antônio Canuto e o professor titular da Universidade de São Paulo (USP), Ariovaldo Umbelino de Oliveira.
Na mesma data, a CPT entregará o relatório à ministra da Secretaria Especial de Direitos Humanos, Maria do Rosário Nunes e protocolará o mesmo nos ministérios do Desenvolvimento Agrário (MDA), Justiça, Meio Ambiente e Minas e Energia, e na Secretaria Geral da Presidência da República.
Conflitos no Campo no Brasil 2010
O relatório registra 34 trabalhadores rurais assassinados em conflitos no campo no ano de 2010. Um número 30% maior que no ano anterior, quando foram assassinados 26 trabalhadores. O aumento da violência no campo assusta e vitima, também, comunidades tradicionais. O relatório mostra, também, o aumento dos conflitos pela água, os dados de trabalho escravo e sua expansão em estados considerados “desenvolvidos”, além de ações de resistência dos movimentos e organizações sociais e das ações dos poderes público e privado contra a luta do povo pobre do campo, que busca se firmar e trabalhar em sua terr
Fonte:CNBB

Assessores das CEBs discutem “Os desafios do mundo contemporâneo” em Seminário no RJ



cebs_rj1Acontece na Casa Assunção, no bairro de Santa Tereza, no Rio de Janeiro até domingo, 17, o 1º Seminário Nacional de Assessores e Assessoras das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs). O evento reúne 30 assessores das CEBs, dos 15 Regionais da CNBB, desde ontem 14.
Com o tema “As CEBs frente aos desafios do mundo contemporâneo”, o Seminário é uma realização do Setor CEBs da Comissão Episcopal Pastoral para o Laicato da CNBB em parceria com o Iser-Assessoria, entidade sediada no Rio de Janeiro e que promove pesquisas e assessorias nas áreas de religião, cidadania e democracia.
Outro objetivo do Seminário é promover uma formação mais sistematizada para aqueles que acompanham a caminhada das CEBs nos seus respectivos regionais; debater sobre a identidade das CEBs hoje e refletir os desafios que estão postos pelo mundo contemporâneo, tais como o mundo urbano, o mundo rural, a juventude, mudanças climáticas, os grandes projetos de infra-estrutura no país e as CEBs na vida da Igreja no Brasil a partir do documento 92 da CNBB.
O assessor do Setor CEBs, professor Sérgio Coutinho, destaca que este seminário vem de encontro a um momento novo, um verdadeiro tempo de graça [kairós] na Igreja da América Latina e Caribe. “A Conferência de Aparecida chamou a atenção para o seguinte: para que a Igreja seja toda missionária é necessária uma conversão pastoral e mudança de suas estruturas, saindo de uma pastoral de manutenção para uma pastoral verdadeiramente missionária. Daí, ela chama a atenção para uma Igreja que seja comunidade, melhor, rede de comunidades”, explicou o assessor.
Ainda segundo Coutinho, as CEBs compreenderam muito bem isso com a realização do 12º Intereclesial, realizado em Porto Velho (RO), em julho de 2009, quando trabalhou o tema da ecologia e da missão, e este evento teve repercussão direta na última Assembleia Geral da CNBB, quando as CEBs foram tema prioritário. O resultado foi a publicação do documento 92 “Mensagem ao Povo de Deus sobre as CEBs”.
cebs_rj2Para Lenir Assis, da diocese de Londrina e assessora do Regional Sul 2 (Paraná), “este seminário vem em um momento providencial porque a caminhada das CEBs no Brasil precisa ainda ser mais aprimorada, procurando compreender os novos momentos que vivemos, sem deixar de fazer memória, de resgatar a nossa história, principalmente para aqueles mais novos, que estão chegando agora nesta missão de assessor e assessora de CEBs”.
Ao longo destes dias, os participantes trabalharão as CEBs nos documentos da Igreja (do Vaticano II a Aparecida e nos documentos da CNBB); a identidade e a diversidade das CEBs; os desafios contemporâneos nos campos sócio-político, cultural e religioso; e o papel dos assessores nas CEBs
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Fonte:CNBB

quinta-feira, 14 de abril de 2011

A Missão no coração


14/04/2011 | Jaime C. Patias *

"Evangelizar é sussurrar mais ao coração da pessoa".
Fundada em 1910, pelo Bem-aventurado José Allamano, a Congregação das Irmãs Missionárias da Consolata acaba de celebrar o seu primeiro centenário de história. As irmãs somam hoje 730 e estão presentes em 19
Jaime C. Patias
Irmã Gabriella Bono
países da Europa, África, América e Ásia. Há 12 anos têm como Superiora Geral a irmã Gabriella Bono. Italiana de Boves, província de Cuneo, com 34 anos de vida religiosa, irmã Gabriella já trabalhou na Argentina, na formação de lideranças, com a juventude e com os Povos Indígenas.

Em São Paulo, para participar da Assembleia Continental que reuniu entre os dias 3 e 6 de janeiro representantes dos missionários e missionárias de todo o continente, em preparação para o próximo Capítulo Geral, irmã Gabriella foi entrevistada pela revista Missões e abordou temas relacionados à missão da Congregação e seus desafios. "Acredito que o continente americano tem muito para dar ao carisma e à missão numa caminhada de comunhão e colaboração", afirmou.
Madre Gabriella, quais seriam os principais elementos na vida de uma religiosa e missionária? 
Na minha experiência, acompanhando as irmãs de Congregação nos últimos 12 anos, em diversos países, eu diria que o primeiro elemento é a convicção de que a nossa vida é uma escolha de amor por Jesus, em resposta ao seu chamado. Assim, toda a vida deve ser sentida como um amor apaixonado por Ele que é o Filho missionário do Pai e que nos chama a partilhar da mesma missão. Assim nos falava o nosso Fundador: "a melhor vocação e missão que Deus nos possa dar é aquela do seu Filho Jesus". É uma missão que orienta toda a nossa energia como mulheres consagradas, por toda a vida. Eu agradeço a Deus por ter experimentado e conhecido tantas missionárias e missionários que deram e estão dando a vida pela Missão, com simplicidade e meios pobres, no silêncio, mas com muito amor, colocando-se ao lado das pessoas, caminhando com elas, partilhando a vida, o sofrimento, a violência e as dificuldades para dizer: Deus está aqui. Quando visitei as irmãs na Somália, um muçulmano me disse: "até que nós temos as irmãs aqui sabemos que Deus não nos esqueceu, Ele lembrou-se de nós" (em setembro de 2006, a irmã e enfermeira italiana Leonella Sgorbati, MC, foi assassinada na Somália e as missionárias tiveram que deixar o país. Agora pretendem regressar).

As missionárias da Consolata trabalham em 19 países, na maioria deles juntamente com os padres e irmãos. Quais são as presenças mais significativas?
Graças a Deus temos ricas expe-riências, mas destacaria as que são as nossas típicas, voltadas para a defesa da vida, onde ela se encontra mais ameaçada. Por exemplo, nas Ilhas da Guiné Bissau, África, onde o povo não tem muitos meios para sobreviver e as mães morrem durante o parto (ver Testemunho nesta edição, pag. 14). São situações difíceis em que as irmãs permanecem com o povo. Outra presença significativa é a Missão Catrimani na Amazônia brasileira, onde as missionárias e missionários da Consolata, com os leigos, caminham com o povo Yanomami, partilhando a sua vida, enriquecendo-se dos seus valores, aprendendo a língua, a religiosidade, acompanhando as mulheres no cuidado da vida. O desafio é ser ponte para que os valores da religiosidade, da cultura desses povos originários se transformem em riqueza para toda a humanidade. Destaco ainda a vida dos missionários e missionárias na Mongólia, Ásia, onde enfrentam até 50° C negativos, esforçando-se para aprender a língua e entender a cultura, apresentando-se como homens e mulheres de Deus, testemunhos de consolação.

Os missionários e missionárias da Consolata partilham o carisma com os leigos e leigas. Como avalia a participação desse terceiro elemento na família? 
As missionárias da Consolata há quase 20 anos partilham o carisma com os leigos. Vemos esse chamado de Deus como uma graça onde eles, desde a sua vocação laical, diferente da vocação religiosa ou sacerdotal, sentem-se atraídos pelo carisma do Bem-aventurado José Allamano. Com seu jeito, eles vão encarnando e enriquecendo o carisma, por isso os consideramos o terceiro elemento da nossa família. É uma graça porque eles vão nos enriquecer com o jeito de viver o carisma nos seus ambientes, no trabalho, na missão Ad Gentes. Esse era o sonho no nosso Fundador: ter uma família de irmãos e irmãs, seja como sacerdotes, leigos, irmãs e irmãos consagrados que juntos pensam, rezam e vivem um projeto missionário, numa dimensão de igualdade, unidos para servir a missão por toda a vida. Isso garante o futuro da família. Certa vez num encontro com os leigos no Quênia, um grupo da Tanzânia nos falava: "irmãs, agora vocês são menos numerosas, mas não se entristeçam, o carisma segue em nós missionários leigos".

As irmãs estão passando por um momento de escassez nas vocações. Como enfrentar essa crise?
A vida religiosa e apostólica, em geral, está enfrentando isso. Hoje, nós temos algumas jovens da África, que no momento oferece suas vocações. Estamos reformulando o projeto formativo para que o tempo antes do Noviciado seja mais comprido e a jovem chegue nessa etapa mais preparada. Os estudos que se faziam depois da Profissão, passaram a ser feitos antes. Mas essa situação de aridez nos questiona: como estamos vivendo o carisma? Estamos onde deveríamos estar e do jeito que deveríamos estar? Quais são as nossas prioridades? Estamos dando um testemunho de vida fraterna que convide outras jovens? Ao mesmo tempo, é uma oportunidade para repensar e despertar novo ardor missionário, sacudindo o pó dos pés, depois de cem anos de história.

Diante dos desafios atuais, qual seria o rosto da Missão do futuro?
A Missão do futuro seria, no meu modo de ver, pobre, pequena como uma sementinha e vivida no meio do povo. Seria feita em pequenas comunidades internacionais dando testemunho de fraternidade e não-violência. Uma Missão que leve a sério a defesa da vida e da criação, sem grandes estruturas nem mega projetos, mas ao lado dos povos. Gosto muito de uma frase vinda dos missionários na Ásia: "Evangelizar é sussurrar mais ao coração da pessoa". Isso significa muita aproximação, pois não se sussurra à distância. É ficar perto e falar ao coração, o que significa entrar na cultura, respeitar e amar a cultura para poder entrar na vida do povo, conduzidos pelo Espírito. Nós apenas damos nossa pequena contribuição sendo testemunhas de que Deus está no meio do povo. Isso nos enriquece porque o contato com o povo muda o nosso jeito de ser, até mesmo a nossa ideia e jeito de nos relacionar com Deus.

* Jaime Carlos Patias, imc, é diretor da revista Missões. Publicado na revista Missões, n.02 - Março 2011.
Fonte: Revista Missões

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Credo Missionário



Creio em Deus, Pai-Mãe,
que dá e ama a Vida,
pois criou todos os seres por Amor e quer libertá-los de todo sofrimento e levá-los à Felicidade Total.

Creio em Jesus, Enviado do Pai, que sendo Deus, se fez história, inculturando-se totalmente na natureza humana.
Creio em Jesus, que passou fazendo o bem, consolando e libertando os pobres e oprimidos de toda escravidão e questionando os ricos e opressores para a conversão.
Creio no Espírito Santo, que nos impele para o compromisso dinâmico e corajoso pelo Reino de Justiça, Paz e Fraternidade.
Creio na Igreja, divina e humana, santa e pecadora, Povo de Deus que faz história, na qual a autoridade é serviço.
Creio na Igreja, que se organiza na base e cresce na partilha e no serviço, que é sinal e vida do Reino onde todos os carismas são valorizados.
Creio na força das CEBs, das organizações populares, da mulher, do jovem, do menor abandonado, das diferentes culturas e do povo sofrido lutando por Libertação.
Creio que o missionário é o enviado de Jesus como profeta, testemunha e anunciador do Amor de Deus para com os pobres e marginalizados.
Creio que ser missionário é amar incondicionalmente, escutar e servir os mais pobres; viver a utopia do Reino, seguir Jesus Cristo; sofrer com os sofredores, para encontrar o caminho da Ressurreição.
Creio na Fraternidade entre as pessoas.
Creio na Esperança que não falha.
Creio na Bondade fundamental de toda criatura.
Creio na Fé, na Esperança, no Amor; alicerces da Nova Sociedade.

Fonte:http://www.catequesefloripa.org.br

Comblin: pedagogo, profeta e santo. Entrevista com D. Sebastião Soares e D. Luiz Cappio




(Publicado em IHU Unisinos - Instituto Humanitas Unisinos www.adital.com.br )
Pe. José Comblin vivia em Barra, no interior da Bahia, há dois anos. Escolheu viver lá porque achava que a diocese da cidade era uma das poucas que estava, efetivamente, ao lado dos pobres. D. Luiz Cappio conviveu com ele durante esses últimos anos de vida e conta, na entrevista que concedeu por telefone à IHU On-Line, sobre como foram esses últimos momentos da vida de Comblin. "Nós estabelecemos um entrosamento muito grande por ocasião do meu segundo jejum em Sobradinho, quando ele esteve lá comigo durante um tempo bastante grande, sendo muito solidário e muito fraterno na nossa luta contrária ao projeto de transposição de águas do rio São Francisco, conta D. Cappio que, então convidou Comblin para residir na diocese de Barra.
Dom Luiz Flávio Cappio vive na Bahia, onde está à frente da diocese de Barra. Em 2005 e 2007 fez jejum em protesto contra o projeto do governo federal de transposição do rio São Francisco. Em 2008, a organização Pax Christi Internacional (Bélgica) lhe deu o prêmio da Paz do mesmo ano, por sua luta em defesa da vida na região do São Francisco. Em 2009, recebeu o Prêmio Kant de Cidadão do Mundo, da Fundação Kant (Alemanha).
"Sem dúvida a morte de José Comblin é um momento de grande dor para a Igreja e particularmente para quem o conheceu mais de perto". Dom Sebastião Armando Gameleira Soares, bispo da Diocese Anglicana do Recife,reconhece que falar postumamente sobre o grande teólogo e amigo é desafiador. Porém, "ouso acrescentar que é um grande momento de ressaltar a relevância da profecia na Igreja e na sociedade". Ele também concedeu uma entrevista, por e-mail, à IHU On-Line sobre Pe. Comblin.
Nascido em Alagoas, Dom Sebastião Armando Gameleira Soares é bispo da Diocese Anglicana do Recife (região Nordeste), da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil. É mestre em teologia pela Pontifícia Universidade Gregoriana, Roma, e em Ciências Bíblicas , pelo Instituto Bíblico de Roma, e em Filosofia, pela Universidade Lateranense, também em Roma. É também especialista em sociologia e bacharel em direito. Há mais de 25 anos, assessora o Centro de Estudos Bíblicos - Cebi, tendo assumido sua Direção Nacional e sua Coordenação Nacional do Programa de Formação, além da coordenação e da assessoria do Curso Extensivo de Formação de Biblistas. Também colabora na assessoria ao Centro Ecumênico de Serviços à Evangelização e à Educação Popular - Cesep, de São Paulo.


Confira a entrevista com Sebastião Gameleira Soares.
IHU On-Line Na sua opinião, qual foi a contribuição de José Comblin à teologia e ao pensamento teológico contemporâneo?
Sebastião Gameleira Soares Comblin foi, durante muitos anos, professor de Teologia em seminários e universidades. Por isso, teve de lidar também com os chamados tratados clássicos nos quais se organiza normalmente o ensino e a formação teológica de estudantes. Mas, desde cedo, seus olhos se voltaram para a realidade viva da Igreja e do mundo. No que fazia e nos temas que abordava, estava a indicar claramente que não pretendia trabalhar por uma "teologia de corte" que atendesse aos "interesses do príncipe". O edifício clássico da Teologia cristã era para ele como o depósito de grandes tesouros das intuições milenares do Cristianismo, as quais deviam ser resgatadas de modo a dizerem hoje uma palavra nova e relevante à sociedade.
Não pretendia fazer como tantos que apenas elaboram Teologia para respaldar afirmações do Magistério eclesiástico e consolidar o sistema estabelecido e, desse modo, nada dizem de novo ao mundo, só repetem, o que é um péssimo serviço à Tradição. O Evangelho nos diz que apenas repetir, sem provocar nada de novo na vida das pessoas e da sociedade, é palavra vazia, sem novidade e, sobretudo, sem autoridade para afastar de nós os "espíritos impuros" e destrutivos, o contrário de Jesus (cf. Mc 1, 21-28).
Ao chegar a nosso continente, pelo que escrevia e por suas brilhantes conferências, estava bem claro qual era a direção de seu olhar, o horizonte no qual se daria sua reflexão entre nós. Ou seja, o horizonte hermenêutico de preocupações e perguntas a partir das quais olhava a herança milenar do Cristianismo. Teologia para ele era momento teórico da prática cristã na história. Não se tratava de mero discurso religioso, mas de momento da práxis humana e cristã, isto mesmo antes de a Teologia da Libertação elaborar seus conhecidos princípios metodológicos.
Teologia para ele tinha particularmente a função de criticar, à luz da Bíblia e da experiência cristã, a prática missionária, pastoral e sociopolítica. É por isso que se entende que, desde o começo, se preocupou por pesquisar a história e o processo de evangelização da América Afrolatíndia e as marcas que configuraram o Cristianismo no Continente.
Hoje, se acende o debate em torno da importância de uma "Teologia Pública". Ora, já o vemos antecipar, quando lança obras de fôlego como Teologia da Cidade, Teologia da Paz, Teologia da Revolução. Foi por isso que resolveu enfrentar a Ideologia da Segurança Nacional e denunciá-la como idolatria. Em suas conferências, a análise dos sistemas econômicos e políticos e seu julgamento teológico estavam sempre presentes. E, naturalmente, a denúncia da vinculação das estruturas do Cristianismo a esses sistemas, com a indicação inclusive de suas raízes históricas. Nisso, foi mestre.
IHU On-Line O site da sua diocese destacou a notícia sobre a morte do teólogo, que era padre católico. Sem dúvida, um sinal ecumênico por parte da sua comunidade. Qual a importância de Comblin para o ecumenismo, especialmente na região do Recife, onde ele viveu por alguns anos?
Sebastião Gameleira Soares Não se pode dizer que tenha sido um "militante" do Ecumenismo. O que se deve dizer é que foi, como gente e como intelectual e pedagogo (como educador é que foi pastor), uma pessoa radicalmente ecumênica. O foco de todo o seu trabalho intelectual e pedagógico não era a instituição eclesiástica, mas sim a relevância do Cristianismo na vida das pessoas e na sociedade em geral. Estava presente onde o Cristianismo estivesse querendo recuperar-se como fermento de animação de uma sociedade nova e onde pessoas de quaisquer procedências estivessem dispostas a lutar pela justiça. Não é por acaso que recebia convites de seminários e faculdades protestantes e, nos últimos anos, reunia periodicamente em sua casa um grupo de pastores protestantes para reflexão e debates.
Sua atitude ecumênica tem tudo a ver com o que hoje se chama de "Ecumenismo de Base", ou a partir da vida do povo. Porque tocava justamente nos problemas que a todo mundo interessam, os problemas do dia a dia da vida e que não perguntam primeiro por confissões de fé, mas por soluções de fé, como eu gosto de dizer.
Ora, particularmente no Nordeste do Brasil, como no tempo de Jesus em Sua terra, só quem estava interessado em discutir em primeiro lugar questões religiosas e "de Teologia" eram os segmentos integrados no sistema estabelecido (escribas, fariseus, saduceus), o povo mesmo procurava Jesus para sentir a dignidade recuperada, as enfermidades curadas ou pelo menos cuidadas, a fome saciada... Comblin o compreendeu muito bem, tratou dessas questões e assim assumiu a largueza "ecumênica" do coração de Deus, à imitação de Jesus. Sua paróquia realmente era o mundo, no dizer do grande profeta John Wesley, inspirador do Metodismo.
IHU On-Line Pessoalmente, como o senhor analisa a teologia e a obra de Comblin? Pelo que sabemos, o senhor foi seu aluno. É isso? Que recordações e lembranças desse grande teólogo ficarão gravadas em sua memória?
Sebastião Gameleira Soares Na verdade, não tive a graça de ser seu aluno. Quando ele se tornou professor do Instituto de Teologia do Recife - Iter, trazido por convite de Dom Helder [Câmara] depois do golpe militar, eu estava a estudar em Roma, aonde cheguei em outubro de 1964. Só o conheci pessoalmente depois que já era eu mesmo professor do Iter e em seguida também Coordenador dos Estudos.
Às vezes, quando tinha algum intervalo que coincidisse com sua aula, procurava escutá-lo. Também tive a felicidade de escutá-lo em conferências ou em seminários de estudo que promovíamos, especialmente no Departamento de Pesquisa e Assessoria - Depa. Impressionava-nos a capacidade que tinha de escutar as questões e discorrer sobre os mais variados temas por toda uma jornada sem ter nas mãos uma folha de papel sequer. Dizíamos que era cabeça de computador. Amplíssimo nível de informações, tanto de história quanto da conjuntura mundial, e agilidade para refletir e aprofundar os temas com intuições originais.
Um dos aspectos que mais me fascinavam em seu jeito de fazer Teologia é sua capacidade de ir ao tesouro da Tradição e penetrar além da letra, "por trás das palavras", como gosta de dizer nosso amigo Carlos Mesters, na busca de resgatar as intuições mais profundas que estão por detrás das afirmações doutrinais, sempre naturalmente condicionadas pela consciência possível de cada época. De alguns professores em Roma e, especialmente dele, algo disso eu aprendi, de modo que um dia cheguei a mostrar a um amigo luterano que a doutrina católica do purgatório, rejeitada pela Reforma, é, na verdade, uma das afirmações mais luteranas no Catolicismo, uma forma bem da cultura medieval de reconhecer o princípio de simul justus et peccator (simultaneamente justo e pecador), um dos princípios basilares do Protestantismo. Se fizéssemos esse esforço sistematicamente, quantos equívocos desmascararíamos, como foi feito há alguns anos com a questão da "justificação pela fé" no documento conjunto católico-luterano!
IHU On-Line Quais são as grandes fontes matriciais do pensamento de Comblin (teológicas ou não)? Que pensadores e obras fundamentaram a sua teologia?
Sebastião Gameleira Soares Primeiramente, dominava a bibliografia teológica mundial e tinha aguda capacidade de síntese pessoal. Conhecia a história da Teologia, e não só da teologia católica romana. Além disso, era doutor em Ciências Bíblicas com tese sobre O Cristo no Apocalipse, em um tempo em que muito pouca gente se interessava por esse livro da Bíblia. Quem sabe, já era a intuição de que o grande confronto da atualidade é entre Cristo e o Império...
Tinha formação em Sociologia e amplo conhecimento da História da sociedade ocidental, particularmente da História da Cultura, ajudada pela Sociologia da Cultura, e da História da Igreja, especialmente da grande trajetória do Catolicismo. Conhecia muito bem o Marxismo. Seu raio de leituras era amplíssimo, inclusive na área de Economia e da Política. Finalmente, tinha nítida percepção da importância do papel da Igreja na formação da sociedade ocidental (Europa) e na empresa colonial legitimada pelas missões (outros continentes). Sua luta se dava no sentido de resgatar a relevância da herança da Igreja na reconstrução de uma sociedade onde os pobres achassem seu lugar e fossem sujeitos da recuperação de sua dignidade.
Entre os fundamentos de sua obra teológica, não por último, deve ser mencionada a profunda fé no Deus da história o Deus bíblico e sua espiritualidade centrada no discipulado de Jesus, o que lhe dava o poder de ser simples e modesto, pobre, e de sentir-se bem entre os pobres e dedicar a eles e elas sua vida.
IHU On-Line Comblin sempre esteve perto dos leigos e leigas cristãos, como indicam alguns de seus livros como Curso Básico para Animadores de Comunidades de Base (Paulus, 1997), Cristãos Rumo ao Século XXI (Paulus, 1997) e O Povo de Deus (Paulus, 2002). Que laicato desponta do pensamento de Comblin?
Sebastião Gameleira Soares Seu profundo vínculo com o laicato se revela particularmente quando seus projetos de educação teológica visam a formar pessoas, clérigos e pessoas leigas que cheguem a optar por estar em caminhada missionária junto com o povo pobre das comunidades, especialmente a gente camponesa humilhada do interior. Para ele, isso seria um golpe certeiro no que se faz habitualmente com os estudos teológicos, a saber, servem para criar e fortalecer uma elite que, "entronizada" acima do povo, o domina. A seu ver, ordinariamente, os estudos teológicos são um dos fortes sustentáculos do sistema clerical, do qual o povo de Deus em geral está excluído.
Já no Chile, foi um formulador desse novo sistema de formação. No Nordeste do Brasil, junto com um grupo de seminaristas e do saudoso Padre René Guerre (francês, ex-assistente nacional da Juventude Operária Católica - JOC francesa, trazido ao Recife por Dom Helder), orientou a famosa "Teologia da Enxada", que supunha os estudantes cursarem Teologia estando inseridos no meio de camponeses, junto aos quais, como primeiro passo dos estudos, pesquisavam qual era a formulação popular da fé cristã.
Com o amadurecimento de suas experiências e de sua análise do sistema eclesiástico, tomou a decisão de não mais colaborar em seminários para formação do clero e dedicar-se totalmente à educação teológica e missionária de gente leiga. Fazia isso especialmente no interior da Paraíba e da Bahia, ao lado de suas conferências e seminários de estudo em outras partes do Brasil e no Exterior.
Várias são as iniciativas das quais era o grande inspirador e pedagogo: Centro de Formação Missionária, Associação de Missionários e Missionárias do Nordeste, Curso da Árvore, "Seminário" de formação para gente leiga dos sertões da Bahia, Fraternidade do Discípulo Amado... Recomendou e escreveu sobre isto: o povo leigo das Comunidades de Base devem organizar-se em associações autônomas para assim resistir ao poder do sistema eclesiástico. Tinha plena razão. Muito de todo o esforço das comunidades ficou prejudicado por falta de terem dado esse passo. Sem autonomia jurídica, que seria dada por associações civis legalmente constituídas, é fácil, como tem sido, para o poder na Igreja anular a iniciativa do laicato, sobretudo do laicato mais pobre e frequentemente iletrado.
É bom ressaltar que em torno dele sempre estiveram muitas mulheres que assim têm sentido a dignidade resgatada e sua capacidade de influir na Igreja e na sociedade, tanto leigas como freiras.
IHU On-Line Que figuras foram centrais na vida de Comblin, como impulsionadoras ou críticas ao seu pensamento?
Sebastião Gameleira Soares Penso que há outras pessoas com bem mais autoridade para responder sobre isso. Ousaria lembrar que admirava sobremaneira a figura do "Apóstolo do Nordeste", o Padre [José Antônio Maria] Ibiapina. Sobre ele chegou a escrever um livro e trabalhou intensamente pela restauração do Memorial com seu nome em Santa Fé , na serra paraibana. Lá quis ser enterrado. Padre Ibiapina assumiu o ministério depois de aposentado como juiz de Direito e viúvo. Dedicou a vida ao povo dos sertões e teve a intuição de que é o povo sertanejo, pobre, que deve ser o agente missionário de sua região.
Em função disso, por exemplo, fundou as famosas "casas de caridade", onde se reuniam em comunidade mulheres do lugar para estarem a serviço das necessidades do povo. Ele, Ibiapina, era inspirador e orientador. Esse modelo correspondia justamente aos ideais de Comblin, uma Igreja que nascesse do Espírito Santo a partir da iniciativa do povo agindo autonomamente a serviço de seus iguais.
Depois vêm figuras como Dom Helder Camara, Dom Oscar Romero, Dom Leonidas Proaño e tantas outras dentre os Pais da Igreja da América Afrolatíndia. Sem falar de seus e suas colegas de tarefa de elaboração teológica. Nestes últimos anos, aproximou-se intimamente de Dom Fr. Luis Cappio, Bispo da Barra, na Bahia, confessor da fé e apóstolo do povo ribeirinho do São Francisco. Transferiu-se mesmo para a Bahia e foi lá que faleceu. Tinha dito que no curso final de sua vida queria estar perto de um santo filho de São Francisco para ter perto de si um exemplo de santidade e assim se preparar melhor para a grande viagem...
IHU On-Line Alguns dos livros de Comblin abordam especificamente questões bíblicas. Que aspectos centrais o senhor destacaria na "leitura bíblica de Comblin?
Sebastião Gameleira Soares Sobretudo desde vários anos para cá, Comblin compreendeu sua tarefa de escritor como dever produzir livros que falassem de Teologia da Missão, da Palavra como elemento dinâmico e transformador da vida e da sociedade, do Espírito Santo como suscitador de iniciativas de missão, de Jesus como centro em redor do qual estamos nós em atitude de discipulado.
Esses escritos têm uma fortíssima inspiração bíblica e espiritual. Querem colher na raiz o testemunho que nos deixaram as Escrituras e suscitar em nós atitudes novas, à imitação de Jesus. Lembremos de livros como Cristãos do Século XXI, Povo de Deus, A Liberdade Cristã, O Caminho.
Sobre Jesus, escreveu sempre e a partir dos evangelhos. Participou do Comentário Ecumênico Brasileiro com alguns livros sobre as Epístolas Paulinas e os Atos dos Apóstolos. Estava no mesmo rumo do que chamamos de Leitura Popular e Comunitária da Bíblia. A vida como contexto de leitura da Bíblia e a Bíblia como testemunho da vida de nossos pais e mães na fé, para que possamos perceber a força transformadora da Palavra que Deus nos dirige hoje, na atualidade de nossa existência.
IHU On-Line Para finalizar, deseja acrescentar mais alguma coisa sobre Comblin?
Sebastião Gameleira Soares Acrescentaria apenas o seguinte: é impressionante perceber em Comblin Padre José ou Padre Zé, como o povo lhe chamava uma personalidade paradoxal. Quase tímido e ao mesmo tempo de coragem e determinação de aço. Até na morte não caiu aos poucos, mas tombou de repente, como as palmeiras que caem de um só golpe, trabalhou até morrer. "O justo é como a palmeira plantada nos átrios de Deus". Quase silencioso, de voz mansa e fina ironia, a arma dos pobres, e ao mesmo tempo voz que soava por cima dos telhados e atravessava continentes.
Diante de sua palavra crítica, isto é, que instaura a crisis, a ditadura militar tremeu e por isso o expulsou do país, e as hierarquias eclesiásticas ainda agora tremem temerosas da influência que pode ter na mente dos fiéis. Privilegiadamente inteligente, teólogo famoso, e ao mesmo tempo modesto, pobre, quase escondido. Fiel aos pobres, ao ser convidado para conferências e seminários, ao que me consta, nunca se interessou pelo que teria de gratificação financeira, nunca teve "preço" nem cedeu ao sistema de mercado, permaneceu pobre a serviço de pobres.
Escreveu para teólogos e letrados e com mais amor ainda escreveu para pobres e gente de poucas letras. Fez conferências em grandes auditórios de universidades e gastou precioso tempo com freiras tão sem poder nas estruturas eclesiásticas, camponeses, missionários e missionárias do campo, mulheres pobres. Grande intelectual e, ao mesmo tempo, de profunda espiritualidade radicada na fé e no amor a Jesus e a Seu caminho, por isso capaz de celebrar a fé junto com o povo.
Viveu da tarefa de formular pensamentos e teoria, suas aulas eram "monótonas", isto é, sua voz tinha sempre o mesmo tom, só as seguia quem era capaz de se encantar pelo conteúdo e não dependia tanto de "recursos didáticos", e ao mesmo tempo foi um dos maiores pedagogos que temos conhecido por sua capacidade de inspirar e suscitar iniciativas e comunicar às pessoas a perspectiva de se tornarem autônomas no pensamento e na ação.
Foi "pedagogo", isto é, Guia para a descoberta da Verdade da vida. Foi Profeta para denunciar a mentira dos sistemas de opressão e anunciar a Verdade do Reino de Deus. É santo para nos inspirar a perseverar no Caminho.
Confira a entrevista com Dom Cappio.
IHU On-Line Onde o senhor conheceu José Comblin?
Dom Cappio Falar do Padre José Comblin é falar de um grande amigo e irmão que eu tive a felicidade de ter nos últimos dois anos de sua vida, quando ele decidiu vir morar aqui comigo na cidade da Barra, na Bahia. Esta convivência com ele foi uma convivência muito amiga, muito fraterna e de identificação mútua. Eu o conheci através dos seus livros, dos seus gritos como estudante de Teologia. Muitos dos assuntos de pesquisa eu estudava em seus livros, pois ele era uma fonte de pesquisa para mim. Ele me ajudou muito no curso de Teologia que fiz. E depois, ao longo da minha vida sacerdotal e também episcopal, sempre procurei em seus livros um enriquecimento para o meu conhecimento e atualização teológica.
Além dos livros, também o conheci pessoalmente quando fiz o curso de bispos. Fui convidado a participar desta formação há mais ou menos dez anos. Depois nós estabelecemos um entrosamento muito grande por ocasião do meu segundo jejum em Sobradinho, quando ele esteve lá comigo durante um tempo bastante grande, sendo muito solidário e muito fraterno na nossa luta contrária ao projeto de transposição de águas do rio São Francisco. Foi desta maneira que conheci o Padre José Comblin. Fiz o convite para que ele viesse residir aqui na nossa diocese e ele prontamente aceitou e aqui permaneceu até os seus últimos dias.
IHU On-Line Por que ele decidiu viver em Barra, na Bahia?
Dom Cappio Segundo o que Padre Comblin dizia, era porque ele entendia que Barra era uma das últimas dioceses do Brasil que tinha feito a opção pelos mais pobres, mais carentes, por um povo bastante esquecido e bastante empobrecido. E ele, no seu desejo muito grande de viver à risca e até os limites o evangelho de Jesus, optou passar os seus últimos dias, os seus últimos tempos de vida, aqui na diocese da Barra, onde se concentrava certa porção de uma das partes mais carentes do povo de Deus. Ele sempre dizia: "eu vim para a diocese da Barra porque aqui residem os pobres, aqui é uma igreja que está a serviço dos pobres e às comunidades que são organizadas para servir aos pobres. É por isso que vim para a diocese da Barra, para viver com eles.
IHU On-Line A vontade de Comblin era ser enterrado no mesmo santuário onde Pe. Ibiapina foi sepultado. Quem foi este padre? O senhor sabia desse desejo do Pe. Comblin?
Dom Cappio Padre Ibiapina, padre mestre Ibiapina, foi um grande missionário que viveu no Nordeste. Ele nasceu em Sobral, no Ceará, em 1806, e morreu em Santa Fé , na Paraíba, em 1883. Ibiapina se tornou padre já bem idoso, ele primeiro foi advogado, depois foi juiz de direito, mas quando percebeu que a Justiça estava apenas a serviço dos grandes senhores da época, ele abandonou a sua carreira jurídica e se ordenou padre. Assim, ele se embrenhou pelos interiores do sertão nordestino, criando toda uma infraestrutura que possibilitasse a vida das comunidades mais carentes do sertão do Nordeste, construindo açudes, construindo os primeiros hospitais da região, construindo casas para acolher crianças que morriam, para acolher pessoas idosas que não tinham quem as cuidasse.
Foi um homem que dedicou toda a sua vida na prática da caridade e de ações direcionadas aos mais carentes da sociedade. Padre Ibiapina está em processo de beatificação, é um grande missionário do sertão do Nordeste, pouco ainda conhecido e Padre José Comblin, que também possuía a mesma vocação de viver em função dos pobres e fazer da sua vida uma vida profundamente comprometida com o evangelho de Cristo, viu na vida do Padre Ibiapina um exemplo para sua própria vida. Comblin foi um dos grandes divulgadores da biografia do Pe. Ibiapina e hoje este vem sendo cada vez mais conhecido como um homem de Deus, o grande missionário dos sertões do Nordeste brasileiro graças às pesquisas e ao trabalho de divulgação que Comblin fez. Padre José Comblin era um grande admirador de Padre Ibiapina e um grande devoto de Padre Cícero, por causa do compromisso que este tinha com os mais pobres. Estes são os ícones que viveram do nordeste brasileiro e que serviram para Comblin como exemplos de vida e é por isso que ele escolheu ser sepultado onde o Padre Ibiapina está sepultado. Homens que deram a sua vida pelos homens do Nordeste.
Ele manifestou por diversas vezes essa vontade de ser enterrado junto ao túmulo do Padre Ibiapina, lá no santuário de Santa Fé, na Paraíba.
IHU On-Line Qual sua impressão da cerimônia de enterro do Pe. Comblin?
Dom Cappio Dia 27 de março, domingo, ele acordou logo cedinho, tomou o seu banho, se vestiu e saiu. Ele estava no Recanto da Transfiguração, que é uma casa de encontros dirigidos por Gisa Maia, uma leiga consagrada aqui na Bahia. Comblin gostava muito daquele recanto, um lugar que inspira muito a espiritualidade. Como estava chuviscando, ele retornou da caminhada e Gisa o viu e pediu que uma das moças que cuidava da casa fosse levar um guarda-chuva para que ele pudesse vir para a oração da manhã.
Quando a moça chegou aos seus aposentos, ele já estava reclinado, sentado meio deitado, já morto. Foi um enfarte fulminante logo na manhã do domingo. Naquele mesmo dia, celebramos a missa de corpo presente, a funerária levou o seu corpo para ser preparado para o enterro e fizemos a viagem por terra até Santa Fé-PB, onde chegamos na madrugada de terça-feira. Durante toda a manhã deste dia, ele foi velado. Centenas de pessoas da região vieram visitá-lo e, à tarde, às três horas, tivemos uma celebração com seis bispos, aproximadamente 60 padres e muita gente da redondeza, porque ele era muito querido, muito amado por aquele povo. E assim foi o sepultamento dele no santuário de Santa Fé, com a participação de muitos bispos, padres e fiéis. E houve também diversas missas de sétimo dia em muitos lugares onde ele era reconhecido e muito valorizado.
IHU On-Line Padre Comblin vivia em Barra também. Vocês conversavam sobre a transposição do São Francisco? O que ele dizia sobre sua luta em relação à vida do rio?
Dom Cappio Sempre conversávamos. Padre Comblin era um profundo defensor da vida, da vida do povo nordestino, da vida do povo ribeirinho, e ele sempre foi contrário ao projeto de transposição, porque ele via que este iria defender os interesses dos grandes grupos da oligarquia econômica, contrária aos interesses populares. Padre José Comblinsempre foi um defensor dos direitos do povo. Quando ele via que este projeto era contrário aos direitos do povo, Comblin se colocou contrário ao projeto de transposição de águas do rio São Francisco e de todos estes projetos faraônicos que agridem a natureza e agridem os direitos da população de ter os seus bens necessários para sua sobrevivência.
Ele via nesse projeto uma agressão à natureza e ao povo que necessita de água. Padre Comblin não conseguia admitir que essa água fosse tirada do povo para servir aos grandes projetos agroindustriais. Ele sempre foi contrário a estes projetos e, por isso, veio à diocese da Barra por ver que aqui havia uma postura muito forte, clara e transparente a defesa dos direitos da população. 
IHU On-Line E, nesse momento, como estão as obras de transposição do São Francisco? Continuam em pé? Que problemas já vêm se apresentando?
Dom Cappio Elas continuam, mas com muita demora, muita delonga, com muitos contratos sendo revistos. O Ministério da Integração Nacional agora já postergou todos os prazos, não se têm mais datas previstas para a inauguração e nós sempre dizíamos que essas previsões eram um efeito político eleitoreiro, mas o pessoal não acreditava. Agora todas as datas foram postergadas e muitas atividades do projeto de transposição que estavam sendo realizadas foram paradas.
Os grandes canais que foram abertos diante de um Sol clemente, estão com as placas de concreto rachando; os técnicos já estão dizendo que as placas não vão aguentar e que todos os canais terão de ser refeitos. É uma tristeza. Aquilo que nós sempre dizíamos, que o projeto não chegaria ao fim, e eu ainda acredito nisso, está acontecendo. Na medida em que ele vai sendo construído vão aparecendo tantos problemas paralelos que os custos estão sendo tão aumentados, os prazos estão sendo cada vez maiores, por isso tenho certeza de que o projeto não terá condições de chegar ao fim. Portanto, confirma-se aquilo que sempre dissemos: que este projeto era eleitoreiro, ou seja, para garantir as eleições de 2010. O projeto já cumpriu a sua função de garantir os recursos necessários para as eleições presidenciais do ano passado, então agora se ele vai ser levado adiante ou não isso pouco importa para o governo.
IHU On-Line Sua luta, as greves de fome que o senhor fez em protesto contra as obras de transposição, como o senhor vê agora, diante desse cenário das obras?
Dom Cappio Eu vejo que foi graças a todas aquelas lutas, àquele grito que foi dado, que fez mostrar para o Brasil e para o mundo o absurdo deste projeto. Na medida em que este projeto avança, a população está percebendo que tudo aquilo que se dizia sobre o projeto é verdadeiro. Há uma total falta de respeito para com as comunidades por onde os canais passam, uma total falta de respeito para com os municípios e estados por onde os canais estão sendo abertos. Também a presença massiva do exército brasileiro que intimida as populações, as indenizações que não estão acontecendo... Na medida em que o projeto avança, está se mostrando para que ele veio, e toda aquela propaganda feita pelo governo de que seria a redenção do Nordeste, cada vez mais o povo percebe o quanto era enganosa.
Tudo aquilo que dizíamos, tudo aquilo que apontamos na época em relação ao projeto, tudo isso está se concretizando. Pelo menos o Brasil e o mundo tiveram a oportunidade de saber a verdade a respeito do projeto. Infelizmente, ele foi iniciado e, com o tempo, vai mostrar o grande engano pela qual toda a sociedade brasileira passou com a viabilização do projeto que, tenho certeza, não chegará ao fim.
 Um abraço afetuoso. Gilvander Moreira, frei Carmelita.
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