terça-feira, 27 de março de 2012

Reflexão do Domingo de Ramos – Ano B – 01/04/2012


                                                                                                                                                                             


Evangelho: Mc 15, 1 – 39

1. Os relatos da Paixão são pontos altos dentro da teologia de cada evangelista. O evangelho de Marcos inicia afirmando: “Começo da Boa Notícia de Jesus, o Messias, o Filho de Deus” (1,1). E no relato da paixão-morte-ressurreição de Jesus retornam com força os temas da Boa Notícia de Jesus, Messias e Filho de Deus.

2. A Boa Notícia, – que é a prática de Jesus, – provocou reações em cadeia desde os inícios do evangelho de Marcos. De fato, já em 3,6, os fariseus e alguns do par- tido de Herodes faziam um plano para matá-lo.

3. A morte de Jesus, portanto, não aconteceu por acaso, MAS é resultado de um plano de morte dos líderes religiosos e políticos. Esse plano dá certo porque Judas, um dos que andam com Jesus, rompe o cerco, permitindo que “os de fora” (cf. 4,11) executem seus projetos de morte. Judas é o traidor, e Pedro, um dos que tinham sido chamados a “estar com Jesus” (cf.3,14), reage com energia quando alguém lhe diz: “você também estava com ele” (14,67).

4. Jesus vai até o fim. Ele é a semente que, jogada na terra (cf.4,3ss), vai produzir frutos além da expectativa. Mas sentir-se-á abandonado por todos, pois um discípulo prefere fugir nu (14,52) a se comprometer com o Mestre. Este, na cruz, sente-se abandonado pelo próprio Deus (cf. 14,34).

5. O evangelho de Marcos é apenas o início da Boa Notícia. Depois que ressuscitou, Jesus precede os discípulos na Galileia (cf.16,7), lugar de gente marginalizada, para a qual a prática de Jesus se tornou de fato notícia alegre, pois trazia, junto com as palavras, a libertação dos oprimidos.

6. É lá, – na Galileia do dia-a-dia,- que os discípulos se encontrarão com Jesus, desde que façam no hoje de sua história as mesmas coisas que o Mestre fez para libertar os oprimidos. O evangelho de Marcos é sempre um início, a fim de que Jesus seja Boa Notícia para quem sofre.

7. Jesus é o Messias e Filho de Deus. Comparecendo diante do Sinédrio, o sumo sacerdote o interroga: “És tu o Messias, o Filho do Deus Bendito?” (14,61). E Jesus confessa: “Eu sou. E vocês verão o Filho do homem sentado à direita do Todo-Poderoso, e vindo sobre as nuvens do céu” (14,62). É a única vez no evangelho de Marcos, que Jesus afirma ser o Messias, o escolhido por Deus para realizar seu projeto de liberdade e vida.

8. O que soa blasfêmia para a sociedade que mata (14,63) é a maior profissão de fé de quem nele crê e a ele adere. No relato da paixão seu messianismo adquire pleno significado: ele é o Filho ungido pelo Pai.
- Uma mulher unge a cabeça de Jesus (14,3), reconhecendo-o Messias.
- O Sinédrio rejeita e condena à morte.
- O oficial romano reconhece nele o Filho de Deus: “de fato, esse homem era mesmo Filho de Deus” (15,39).

9. Jesus é Messias-Rei, mas sua realeza se distancia dos padrões de poder e autoridade daquele tempo e de hoje. Quando os soldados o vestem com um manto vermelho, põem em sua cabeça uma coroa de espinhos e o saúdam, estão na verdade ridicularizando os poderes deste mundo que assim se vestem e oprimem. Jesus é Rei porque se despoja desse tipo de poder e se afasta do círculo dos poderosos (cf.15,21), dando a vida pelos seus.

10. De réu diante do Sinédrio ele se torna juiz (o Filho do Homem sentado à direita do Todo Poderoso e vindo sobre as nuvens de 14,62 recorda o juiz de Daniel 7,13), e juiz que desmascara todo tipo de poder que explora e oprime o povo.

11. Jesus crucificado é o verdadeiro Rei. É o Messias da cruz. Tendo um bandido à direita e outro à esquerda (15,27), ele se apresenta nos moldes das aparições públicas dos reis daquele tempo, que se mostravam ao povo ladeados por seus auxiliares imediatos. Mas sua realeza é diferente, pois está a serviço dos condenados que a sociedade julga fora-da-lei (cf.15,28).

12. Quando Jesus foi batizado, o céu se rasgou (1,10), realizando o sonho de Is 63,19, traduzindo assim o fim do aparente silêncio de Deus. Quando morreu na cruz, a cortina do Santuário se rasgou de alto a baixo (15,38), decretando o fim da sociedade e da religião patrocinadoras de morte para o povo. Esta é a Boa Notícia que a morte e ressurreição de Jesus trazem às pessoas de todos os tempos e lugares.

1ª. Leitura: Is 50, 4-7

13. O nosso texto (parte do terceiro canto do Servo de Javé) do Segundo Isaías (profeta do cativeiro da Babilônia -586-538 a.C) pertence a uma seção maior que abrange os capítulos 49-55 e cujo tema central é a restauração política de Jerusalém, a cidade-esposa de Javé, símbolo da reconstrução de todo o povo. Os exilados se queixam de que Deus tenha sido desleal à aliança: em termos matrimoniais, repudiou a esposa; em termos comerciais, vendeu os filhos como escravos para pagar dívidas.

14. A resposta de Javé (50,1-3) precede o terceiro canto do Servo Sofredor: repudiada, sim, mas legitimamente, por própria culpa (Dt 24,1-4; Jer 3,8); vendidos, sim, mas não por dívidas, e, sim, como castigo (Jz 3,8; 4,2). “Assim diz o Senhor: onde está a ata de repúdio com a qual despedi vossa mãe? Ou, a qual de meus credores vos vendi? Vede, por vossas culpas fostes vendidos, por vossos crimes vossa mãe foi repudiada (50,1).

15. A mudança de Deus é por pura bondade e compaixão. Ninguém responde ao desafio: nem os presumidos credores, por temor, nem o povo, por dúvida. Para dissipar toda dúvida, o Senhor apela para seu poder sobre todo o cosmo (50,2-3).

16. A missão do Servo é mostrar, – à custa das ofensas recebidas, – que o amor de Javé, é perene. Os versículos 4-7 mostram o que Javé faz para o Servo em vista do bem do povo e revelam o Servo responsável, plenamente obediente e fiel:
16.1. – o Senhor Javé dá ao Servo a capacidade de falar como alguém que aprende dele, para levar conforto ao povo;
16.2. – o Senhor Javé abre-lhe os ouvidos para que aprenda dele, como discípulo fiel, para transmitir o que o ouviu;
16.3. – o Senhor Javé lhe dá proteção.
16.4. – Em síntese, o Senhor o prepara para a missão.

17. Em contrapartida, o Servo – para não trair a mensagem, – dá as costas aos que o torturam (=não oferece resistência); toma a iniciativa de oferecer a face aos que lhe arrancam a barba (=sinal de grande humilhação; o servo não liga para a perda de honradez); não esconde o rosto à ofensa maior: injúrias e escarros. O rosto manifesta os sentimentos e desejos de uma pessoa. Torná-lo duro como pedra (v.7) significa não levar em conta toda e qualquer espécie de ofensa, em vista da opção assumida.

18. Para completar : Graças à sua coragem e ao auxílio divino (vv.7-9), Ele suportará as perseguições (vv.5-6) até que Deus lhe conceda um triunfo definitivo (v.9-11).

2ª. Leitura: Fl 2, 6 – 11

19. O hino de Filipenses 2,6-11 é um hino a Jesus Cristo Senhor e por ele ao Pai.
Tem dois movimentos: humilhação e exaltação.
O primeiro movimento de cima para baixo fala do esvaziamento de Jesus. A tradução esvaziou-se (do grego Kénosis) é melhor, mais audaz e vigorosa que humilhou-se, pois nos faz pensar por contraste na “plenitude” e traduz vários degraus:
- Jesus não se apegou à sua igualdade com Deus,
- mas esvaziou-se e tornou-se escravo, semelhante aos homens;
- humilhou-se,
- fez-se obediente até a morte de cruz.

20. Jesus, consciente e livremente, despoja-se de tudo. Seu lugar social é junto aos escravos, sem privilégios, marginalizados e condenados. A condição de escravo é a condição humana submetida a Deus. Faz-se à “imagem e semelhança” (homoiómati) do homem, dos homens.

21. Humilhou-se, fez-se obediente até a morte de cruz. A obediência ao Pai define toda a sua existência humana até o extremo da cruz. Chegando ao ponto mais baixo (na cruz) acontece a exaltação por ação de Deus.

22. Jesus – consciente e livremente – esvaziou-se e despojou-se de tudo e colocou-se ao lado dos escravos, sem privilégios e condenados. Não há outra forma de revelar o projeto de Deus, a não ser esvaziando-se de todas as realidades humanas, das quais com muita dificuldade abrimos mão (prerrogativas, posição social, honra, dignidade, fama e o mais precioso, a própria vida). Jesus perdeu todas essas coisas. Desceu ao mais profundo do poço da miséria e da solidão humana (Jesus, despojado de tudo, parece abandonado até por Deus). Chegou à maior baixeza: fez-se servo e foi morto (como um bandido) na cruz.

23. O preço da encarnação foi a cruz. E o evangelho de Paulo é exatamente o evangelho de um crucificado. Habituados a pensar na divindade de Jesus, perguntamos: onde foi parar sua divindade? Ficou escondida por um momento? Ou era justamente – no fato de ser plenamente humano – que ele revelava o “ser de Deus”? Imaginar que Deus seja um ser desencarnado e abstrato é a desculpa de alguns para fugir à difícil tarefa de nos encarnarmos nas realidades humanas mais sofridas. Ao fazermos isso, teremos de nos despojar de uma série de coisas, das quais Jesus se despojou: prerrogativas, status, fama, promoção pessoal, poder, dominação, etc. ( … das quais nós dificilmente nos despojamos …).

24. Ponto alto da 1ª. parte do hino está na maior baixeza: Jesus se fez servo e foi morto como um bandido na cruz. Essa foi sua opção de vida consciente. Esse hino retoma o texto de Isaías no quarto canto do Servo de Javé (Is 52,13-53,8).

25. O segundo movimento do hino é de baixo para cima. Aqui o sujeito é Deus. É Ele quem exalta Jesus, ressuscitando-o e colocando-o no posto mais elevado que possa existir. O Nome que recebeu do Pai é o título de SENHOR – Senhor do universo e Senhor da história. Diante dele toda a criação se prostra em adoração! (2,10). (Esta segunda parte também se inspira no quarto canto do Servo de Javé).

26. Exaltou (o verbo grego é enfático): o nome é “Jesus”, o título é “Senhor” que corresponde a altíssimo (Kyrios = Senhor = Adonai = Javé = Deus). Perante o Senhor e Deus só há uma atitude de adoração a tomar: todo joelho se dobre … toda língua confesse … Jesus Cristo é o Senhor! E todo o movimento termina endereçando tudo “para a glória de Deus Pai”.

27. Deus Pai é glorificado quando as pessoas reconhecem em Jesus o humano divinizado … o humano que passou pela encarnação das realidades mais sofridas e humilhantes, culminando com a morte na cruz (condenação imposta a criminosos). Evangelho é, portanto, o anúncio daquele que se fez servo obediente até a morte e morte de cruz. E esse anúncio não acontece sem que as pessoas também se encarnem e apostem a vida, como fez Paulo.

28. Ele, apesar da sua condição divina,
… esvaziou-se,
… fazendo-se semelhante aos homens,
… tornou-se obediente até a morte,
… e morte de cruz;
… por isso, Deus o sobre-exaltou grandemente,
… e lhe deu o nome superior
… Jesus Cristo é o Senhor!

R e f l e t i n d o . . .

1. A primeira parte de Marcos é marcada pelo caráter velado da obra messiânica de Jesus. Este traz o Reino de Deus presente, mas não de modo manifesto. Apenas o deixa entrever em sinais de sua autoridade (1,21, 2,10,…), melhor reconhecidos pelos demônios do que pelos discípulos.

2. Aponta a presença escondida do Reino, narrando parábolas (Mc 4). Suscita admiração por seus grandes milagres, que mostram seu domínio da natureza. Prefigura o banquete escatológico (5,34-44). Mas o mistério de sua missão e personalidade fica escondido até para os discípulos (8,14ss). A cura dos olhos do cego de Betsaida marca um início de mudança (8,22ss). Os discípulos reconhecem Jesus como Messias (8,27-29), porém, entendem-no em categorias humanas e não divinas (8,31-33).

3. Mediante as predições da Paixão e ensinamento sobre o seguimento e o serviço, Jesus prepara seus discípulos para a reta compreensão de seu messianismo: não à maneira militaresca de “filho de Davi” (Davi era guerreiro), mas à maneira do Rei-Messias humilde e esmagado de Zc 9 (Mc 8,27-10,45). A cura do cego de Jericó é o sinal de uma visão crescente (10,46), … mas Jerusalém fica ainda na ambiguidade: aclama como rei davídico aquele que entra sentado num burrinho (como o rei de Zc 9) e que, no fim de seu ensinamento em Jerusalém, declarará absurda a mera identificação do Messias com o filho de Davi (12,37).

4. Jesus é mais que o filho de Davi. Ele é o Filho querido de Deus (1,11; 9,7; 15,39), o Servo que, – em obediência ao incansável amor de Deus para com os homens, – dá sua vida, realizando em plenitude o que o Servo de Deus em Isaías 52-53 prefigurou.

5. Mas como Filho de Deus, ele é também o Filho do Homem, portador dos plenos poderes escatológicos. Sua condenação, -sob falsas alegações religiosas e políticas,- significa o primeiro passo para sua vinda gloriosa e o juízo sobre o mundo (Mc 14,62), que ele havia anunciado imediatamente antes de sua paixão (Mc 13). É a dispersão escatológica (Mc 14,27), prelúdio da reunião do rebanho pelo pastor escatológico, de- pois da ressurreição (14,28). É o início do tempo final, prelúdio da vinda definitiva (que os primeiros cristãos esperavam para breve). Para nós, hoje, esta cristologia de Marcos significa uma crítica a qualquer messianismo imediatista, que recorre à imposição e não à paciência do testemunho até o sangue (=martírio).

6. Jesus traz o Reino de Deus não de forma manifesta, mas o deixa entrever em sinais de sua autoridade:
- os demônios que ele expulsa o reconhecem;
- os gestos de Jesus apontam para o Reino: a partilha do pão (mas os discípulos não entendem);
- a abertura dos olhos do cego de Betsaida anuncia uma mudança;
- os discípulos não reconhecem o Messias nos caminhos do Servo Sofredor;
- os ensinamentos sobre o seguimento e o serviço;
- a abertura dos olhos do cego de Jericó.

7. A narração da Paixão fornece uma “chave de leitura” para entender a mensagem de Jesus. O sumo sacerdote pergunta se ele é o Messias, o Filho de Deus. Jesus responde: “sou, sim, e vereis o Filho do Homem sentado à direita do Todo-Poderoso e vindo com as nuvens do céu” (Mc 14,61).

8. O mundo pergunta se ele é o Filho de Deus, e ele responde que é o Filho do Homem … Este Filho do Homem é uma figura que vem da profecia de Daniel (Dn 7,13-14). É o enviado celestial que esmaga as quatro feras que disputam o domínio sobre o mundo. Simboliza o Reino de Deus. O Reino de Deus, (que vence os reinos “ferozes” deste mundo) , tem rosto humano. Para nós, tem o rosto de Jesus. Assim, – na Paixão de Jesus, – Filho do Homem e Filho de Deus significam a mesma coisa. Jesus é o Filho querido de Deus, que une sua vontade à do Pai, para, – pelo dom da própria vida, – vencer as feras que dominam este mundo e quebrar sua força definitivamente.

9. Ao ser condenado pelo sumo sacerdote de seu povo, ele se proclama portador de uma autoridade: a do Filho do Homem. Quando ele morre na cruz, por causa da justiça e do amor, – o representante do mundo universal, o militar romano, exclama: “Este era de fato Filho de Deus”. Ambos os títulos significam o respaldo que Deus dá a Jesus, e que se verificará na gloriosa ressurreição dentre o mortos.

Jesus é vencedor pela morte por amor em obediência filial (Filho de Deus), mas também pelo julgamento que derrota o poder deste mundo (Filho do Homem).

10. Muitos pensam que Deus obrigou Jesus a morrer para pagar com seu sangue os nossos pecados. Será que um tal Deus se pode chamar de “Pai”? O que significa: Jesus foi obediente até a morte? No relato da paixão de Nosso Senhor o evangelista Mateus coloca na boca de Jesus as palavras do Pai-nosso: “seja feita a tua vontade” (26,42). Mateus vê o Messias sob o ângulo da realização do projeto do Pai. Jesus realiza o modelo do Servo-Discípulo, que pede a Deus “um ouvido de discípulo” para proclamar a sua vontade com “boca de profeta” e lhe ser fiel até o fim.

11. A fidelidade à missão de Deus é que faz de Jesus o Messias e Salvador. Jesus não veio para “fazer qualquer coisa”, mas para realizar o projeto do Pai. Ensina-nos a obediência até a morte, como instrumento de salvação do mundo. Pois quem sabe o que é preciso para salvar o mundo é Deus. Ele sabe que a morte daquele que manifesta seu amor infinito é a resposta suprema ao supremo desafio do mal. Jesus poderia ter sido infiel a Deus, pois era livre. Mas então teria sido infiel a si mesmo, Servo, Discípulo, Messias e Filho. Levou a termo a obra iniciada: pregar e mostrar o amor de Deus – até no dom da própria vida.

12. O exemplo de Cristo nos ensina o caminho da libertação. Vamos realizar a missão de libertar o mundo pela fidelidade radical à vontade do Pai. Por isso, devemos “prestar-lhe ouvidos” – sentido original de “obediência”. Obedecer não é deserção nem negação da liberdade. É unir nossa vontade com a vontade do Pai, para realizar seu projeto de amor, e unir com outras vontades (humanas) que estão no mesmo projeto. E é também dar ouvidos ao grito dos injustiçados, que denuncia o pisoteamento do plano de Deus. Só depois de ter escutado todas essas vozes poderemos ser verdadeiros porta-vozes, profetas, para denunciar … e anunciar … Profetismo supõe contemplação e obediência!

13. Deus não obrigou Jesus a pagar por nós, nem desejou a morte dele. Só desejava que ele fosse seu Filho. Esperava dele fidelidade a seu plano de amor e que ele agisse conforme este plano. E Jesus foi fiel a esta missão até o fim. Quem quis a sua morte não foi Deus, e sim, os homens que o rejeitaram.

14. A 1ª. leitura retrata um momento importante da pedagogia da salvação: o povo de Deus começou a entender que o plano de Deus não se realiza pela força, mas antes, pela doação do “justo”. Em Jesus nós contemplamos a plenitude dessa realização. “Ninguém tira a vida de mim … eu a dou livremente” (Jo 10,17-18).

15. A 2ª. leitura é o primeiro hino cristológico conhecido. Resume o mistério do despojamento do Senhor, na figura do Servo, e que, por sua obediência até a morte (= o amor radical que manifesta Deus-Amor) é glorificado no senhorio de Deus.

16. Aliás, esta ideia de Cristo Senhor inspira o início da liturgia de hoje, a procissão de ramos. O dado evangélico é a entrada de Jesus em Jerusalém, onde é recebido como o rei davídico (“filho de Davi”), o Messias. Para Mateus isso significa o cumprimento das antigas promessas messiânicas. Os fiéis, unindo-se a esta homenagem, cantando a glória do Cristo e Senhor e abanando os ramos, se unem para confirmar o gesto mais significativo do povo, que Jerusalém esqueceu dentro de poucos dias. No fundo, esta é a mais antiga festa de Cristo Rei. Assim este domingo é marcado pelo mistério do esvaziamento (sofrimento) e da glória (senhorio) do Senhor Jesus.

17. A morte de Jesus não é um fracasso, um caminho sem saída, mas a inauguração da paz e salvação plena na presença de Deus. Sua morte é consequência da sua vida, da sua doação plena ao projeto de salvação operado por Deus na história humana. É o cume do anúncio do Reino de Deus. É a manifestação do Reino de Deus, ou seja, da justiça e da fidelidade.

18. Na decisão do sumo sacerdote, magistrados e da multidão em condenar Jesus, transparece a total rejeição do projeto de Deus, realizado no homem de Nazaré. A morte de Jesus situa-se no final de uma série de infidelidades e rebeliões contra o projeto de Deus ao longo da história.

19. A obediência de Jesus ao Pai significa – antes de tudo – que Jesus levou ao cumprimento pleno e perfeito o projeto de amor de Deus para com o ser humano. Nem mesmo a tortura da cruz, faz Jesus desistir de mostrar às pessoas quem é o Pai e qual é a sua proposta para o ser humano.



Material Elaborado pelo Prof. Ângelo Vitório Zambon
Comissão Arquidiocesana de Liturgia – Campinas
Fontes: Bíblia de Jerusalém, Bíblia do Peregrino, Dicionário Bíblico (Mckenzie), Liturgia Dominical (Konings), Dicionário de Liturgia, Vida Pastoral, Homilias e Sugestões (BH), Roteiros Homiléticos (Bortolini)

Nenhum comentário: