domingo, 26 de agosto de 2012

Música sobre Zaqueu: Entra na minha casa…


Uma comparação entre Lc 19, 1-10 e a música sobre Zaqueu
Temos no Evangelho segundo Lucas (19, 1-10) a história de Zaqueu, mais conhecida como aquele que subiu na árvore para ver Jesus. Por outro lado, temos também uma música “gospel”, denominada “Faz um milagre em mim”, mais conhecida assim: “Como Zaqueu”, que tem ocupado grandes espaços, tanto na mídia como na Igreja Católica. Alguns chegaram ao ponto de introduzir está música inclusive na liturgia. O que dizer então do texto, da música e do fato dela ser cantada na liturgia? Eis o objetivo deste artigo!
Em primeiro lugar é oportuno mostrar que Zaqueu subiu na árvore para VER QUEM ERA JESUS. O texto diz: “Procurava ver quem era Jesus”(19, 3). Ver uma pessoa é muito diferente de Ver QUEM é a pessoa. Neste sentido, podemos, deste já colocar uma reflexão: Não seria esse texto uma construção teológica importante do evangelista, no sentido de orientar os cristãos a procurarem conhecer Jesus, saber quem ele realmente é para acolhê-lo e assim, fazer uma profunda conversão? Em sendo um texto teológico, tal como a subida de Jesus para Jerusalém (9, 51 – 19, 46), não seria melhor pensar no significado do “Procurava ver quem era Jesus” (19, 3), do “subir na árvore” (19, 4); da ordem de Jesus: “desce depressa” (19, 5)? Não seria melhor pensar no significado da própria árvore? E quando fala que “Zaqueu era de baixa estatura (19, 3), o que significa? Seria mesmo altura física? Só para pensar, em Ef 4, 13, Paulo exorta os cristãos a alcançarem a “ESTATURA” de Cristo. Paulo não pede para os cristãos terem a mesma altura física de Cristo, até por que não se sabe! E mais, o termo grego, isto é, texto original, usado Por Lucas para se referir à estatura é o mesmo termo usado por Paulo. Neste sentido, a baixa estatura de Zaqueu poderia ser sua situação moral, sua indignidade e falta de maturidade na fé em Jesus, o que é perfeitamente plausível dado à suas notas: chefe dos cobradores de imposto e rico” (19, 2), características claras do pecador no evangelho segundo Lucas. Por se tratar de um artigo deixo esses pontos em suspense para posteriores reflexões.
Mas e a música, o que podemos dizer? A Igreja possui orientações muito claras sobre que tipo de música deve-se cantar na liturgia e assim, ressalta a obrigatoriedade de que os cânticos sejam de conteúdo bíblico-litúrgico. Em recente orientação, a CNBB diz que “antes de escolher um cântico litúrgico é preciso aprofundar o sentido dos textos bíblicos, do tempo litúrgico, da festa celebrada e do momento ritual”. Considerando tudo o que está exposto acima, podemos dizer que a música “como Zaqueu” tem beleza e melodia, porém, quanto ao conteúdo, possui várias observações:
1) Começa pelo título: “Faz um milagre em mim”. Erro grave de português, uma vez que o imperativo afirmativo deriva das segundas pessoas do singular e do plural do presente do indicativo, de forma que o correto seria: “faze um milagre em mim”;
2) Lucas narra a história do encontro de Jesus e Zaqueu, da conversão deste e de suas atitudes após a conversão. Em nenhum momento o evangelista fala de milagre. Diga-se de passagem, milagre nem de longe é tema do preferido do evangelista;
3) O autor diz: “Eu quero subir o mais alto que eu puder”, enquanto o texto de Lucas ressalta justamente o contrário: Zaqueu precisa é descer. Jesus ordena: “Desce depressa” (19, 5). Deste modo, deixa claro que essa é a atitude correta. Somente após descer é que acontece a transformação de Zaqueu. Neste sentido, o autor deveria dizer: Como Zaqueu eu quero descer, quero me encontrar com ele, recebê-lo em minha casa. São inúmeras as passagens bíblicas que ressaltam a necessidade de descer, diminuir, humilhar-se. Maria, a Mãe de Jesus, diz que “Deus olhou para a humildade de sua serva e a exaltou (Lc 1, 47-52); João Batista diz É  preciso que eu diminua e Ele cresça” (Jo 3, 30).
4) O autor diz: “Quero amar somente a ti”. È uma frase bastante contrária à Bíblia, uma vez que Jesus nunca exigiu amor somente a si. Isso mesmo! Ele diz: “Quem guarda os meus mandamentos e os observa é que me ama” (Jo 14, 21). E quais são seus mandamentos? Qual é o mandamento que ele nos deixou? “Amai-vos uns aos outros como eu vos amei, este é o meu mandamento” (Jo 15, 12). Mesmo quando citou o AT, dizendo: “Amarás ao Senhor teu Deus de todo o teu coração…”, acrescentou: Amarás teu próximo como a ti mesmo” (cf. Mt 22, 37-40). São Paulo diz: “Toda a Lei está contida numa só palavra: Amarás a teu próximo como a ti mesmo” (Gl 5, 14).
5) O autor diz: “Entra na minha casa…”, mas em Lucas, não é Zaqueu que convida Jesus e sim Jesus que diz: “Hoje devo ficar em sua casa” (19, 5). Jesus é que se convida e entra em sua casa;
6) O autor diz: EU preciso de ti senhor, EU preciso de ti oh Pai, SOU pequeno demais, me dá tua paz..”. Parece necessário observar que no texto, Lucas fala de Jesus, portanto, da segunda pessoa da Santíssima Trindade e não do Pai, primeira pessoa.
7) Quando o autor diz: “Entra na minha casa, entra na minha vida, mexe com minha estrutura, sara todas as feridas, me ensina a ter santidade”, ele está a usar o imperativo, como que dizendo a Jesus: Eu é que dou as ordens, por isso, faça as minhas vontades. Aqui, como em toda a música, se percebe o tipo de Deus e religião que agrada ao homem atual: Um Deus ao serviço das pessoas, uma religião que ofereça um Deus que faz todas as minhas vontades. O final da estrofe é conclusivo: Quero amar somente a ti, porque meu senhor é meu bem maior, faz um milagre em mim. O importante é o meu querer!?
8 ) O uso da primeira pessoa também é explícito e demonstra a tendência atual de individualismo e exclusividade na relação com Deus. Tudo em nome da vontade do EU que quer um Deus a serviço. Não se diz: “Faça-se em mim, segundo a sua Palavra”. Mas se diz”: “Faça-se em mim, segundo o que EU QUERO”. Estamos definitivamente e como nunca, no mundo do antropocentrismo e do egocentrismo!
9) Não obstante, na música haver tanto EU e tantas ordens a Jesus, no evangelho, antes de decidir converter-se, Zaqueu não pronuncia uma única palavra. È Jesus quem fala. È Jesus quem manda descer, quem diz que vai ficar na casa de Zaqueu. Quando Zaqueu fala, uma única vez, não é para dar ordens, mas para se humilhar, mostrar seu arrependimento e conversão (cf. 19, 8);
10) O autor diz: “Largo tudo pra te seguir”. Será verdade que um adepto desse modo de pensar tão egocêntrico teria aptidão e coragem para largar tudo e seguir Jesus? Ou essa frase é mais uma para chamar atenção, afinal, logo no início se diz: Como Zaqueu eu quero subir, o mais alto que eu puder, só pra te ver, olhar para ti e chamar sua atenção para mim”?
Enfim, reafirmo que a música tem sua beleza, mas peço que reflitam, pois assim como existe belas músicas que fazem apologia a valores totalmente anti-cristãos, essa música parece ser por demais contrária ao texto bíblico e, portanto, ás orientações da Igreja no que diz respeito ao repertório de música para nossas celebrações e encontros.
Pe. Odair EustáquioPároco da Paróquia Maria Mãe dos CaminhantesItapecerica da Serra – SP

Dom Joviano de Lima Júnior, CNBB: carta aos agentes de música litúrgica do Brasil, setembro de 2008.

Nenhum comentário: